Brasil, esquentai vossos pandeiros



Copa das Confederacoes - Selecao Brasileira

O futebol está voltando pra casa, diz uma propaganda que martela de cinco em cinco minutos nossos ouvidos. Outra canta, na suavez voz de Fernanda Takai, para amarrarmos o amor nas chuteiras. Já me peguei assobiando melodiosamente o jingle patrioteiro. Até lembrei de Araken, o showman, e da cantiga que embalou a narração de Osmar Santos em 86: “Ginga pra lá, gol! Ginga pra cá, Brasil!” Tem ainda uma em que um grupo de italianos viram a casaca para o “Brasile” ao tomar conhecimento de promoção televisiva em caso de título verde-e-amarelo. E há o rapaz que, sortudo, rejeita uma bela moça por ela ser argentina ao pensar nas agruras que um relacionamento com ela traria. “Soy casado“, emenda ele, com os olhos desesperados. Isso para não falar da cabeça de Maradona apagada por controle remoto e das vinhetas abrindo alas para a Copa.

Pitadas de ironia aqui e uma bocado de patriotismo acolá. Nos lares, bares e outros lugares a Copa pegou, por osmose. O silêncio (ainda) das ruas contrasta com o frenesi comercial do Mundial. O torneio pode até não ter chegado com a força de outros tempos nos muros e janelas das cidades brasileiras, mas onde houver um televisor há a trombeta berrando: Pra frente, Brasil! É um grande negócio essa Copa do Mundo. Se grandes marcas torram as burras nisso – basta ver o que a CBF recebe de grana pelo patrocínio à Seleção – e emissoras fazem dos direitos de transmissão um chamariz grandiloquente é porque o apelo é crescente, não diminuto, como alguns suspeitam. Se o povo ainda não expressa euforia é porque está esperando o Carnaval chegar. As temidas (por Fifa e governo) manifestações surfarão na onda da visibilidade que a Copa dá. Elementar! Mas a paixão pela bola, misturada com certo orgulho nacional, fatalmente ficará à flor da pele quando a rede balançar.

O Brasil perdeu oportunidade rara, com os olhos do mundo voltados para cá e os negócios fervilhando, é verdade. Isso tem que ser dito e cobrado nas ruas e nas urnas. A festa do futebol, porém, merece seu crédito. Nada de ignorar desvios, promessas não cumpridas e uma série de avacalhações. Que esteja no caderno da mente como lição para um futuro melhor e mais engajamento no bem coletivo. Mas nada de dar uma bicuda para escanteio na paixão pelo esporte. Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar estarão entre nós. Rivalidades estarão entre nós. A chance única de ver um Mundial em nossas terras se concretiza logo ali. Um povo essencialmente festeiro não vai dar de costas agora.
A vida não se resume a festivais nem Mundiais, bem sei meu caro Geraldo Vandré. Posto isso, não custa pensar que assim como nos anos 60 plateias se apinhavam para ver as novas lendas Chico, Caetano, Gil, Roberto e outros, agora novas multidões nossas se reunirão para ver e torcer. A emoção que faz do futebol um bem cultural, um patrimônio da humanidade, é muito forte, prevalece. Não precisamos das propagandas e das vinhetas, elas apenas antecipam o natural.



  • Carles do 500 aC

    ‘La Roja’, últimos suspiros de uma geração encantada
    blogs.estadao.com.br/500copa/la-roja-ultimos-suspiros-de-uma-geracao-encantada/

  • Carles do 500 aC

    Polvos, pitonisas, métodos científicos e as previsões sobre o próximo campeão do mundo

    http://blogs.estadao.com.br/500copa/entre-polvos-e-pitonisas/

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