Ituano e o valor de um ferrolho



ituano

Ituano, finalista do Paulistão, sofreu apenas 10 gols (FOTO: Miguel Schincariol) 

A retranca sempre foi uma besta-fera no futebol. O jogo bonito, artístico, ofensivo, moleque sempre teve mais Ibope. Natural e bom que seja assim. Melhor ver partidas em que ataques prevaleçam sobre defesas. Por isso, dificilmente exaltamos um 0 a 0, mesmo que alguns não sejam de fato ruins e a ausência de gols deva-se mais a uma atuação soberana de um goleiro ou outro, à falta de pontaria dos atacantes ou até ao acaso de traves em sequência e bolas que passam rente à trave. Os times que pautam seu jogo na solidez defensiva normalmente são defenestrados do imaginário, são rotulados como praticantes do mau futebol, expulsos de nossos corações (se é que neles entraram em algum momento).

Mas tudo na vida exige alguma relativização.  Assim como no filme de George Stevens os brutos também amam, as retrancas também têm seu valor. Desde priscas eras há quem pense que a defesa é o caminho, é o melhor ataque, e que jogar babando pelo gol é coisa de artista, desses Guardiolas, Mitchells e Telês da vida. O austríaco Karl Rappan, com seu ferrolho suíço, introduziu nos anos 30 do século passado um conceito em que defender é espalhar-se no seu campo. Os italianos, mesmo nos tempos dourados dos seus esquadrões milionários, quando o Napoli podia ter Maradona e o Milan Van Basten, acostumaram-se a idolatrar seus sistemas de defesa. O catenaccio sempre esteve em alta por lá. Quantas vezes não ouvimos que o futebol na Bota é duro, de bota, invariavelmente mais duro?

GRECIA

Defensivos, gregos levantaram a Euro 2004 (FOTO: Xavier Bertral)

Há times que concentram sua força no defensivismo e conseguem ter eficiência assim. Nos seus jogos pode-se esperar pouco gols, tamanha a boa execução da proposta. E assim eles vão longe, como argamassas futebolísticas. A bola da vez é o Ituano, finalista do Paulistão com uma defesa que tomou apenas 10 gols em 17 jogos. Os números expõem a ideologia do técnico Doriva: o time fez pobres 17 gols nessa trajetória. Foi assim, sendo vazado muito de vez em quando, que a equipe alcançou a decisão. Inegável que o sistema deu resultado. Não que deva-se pregar o feioso, mas reconhecer que tem sua validade e competência. Ainda mais se for reconhecimento de uma limitação, o que parece ser o caso da equipe de Itu, onde tudo é grande e o futebol atual é pequeno. Pequeno mas digno.

INTERINTER

Contra o Barcelona, em 2010, Mourinho armou a Inter na retranca (FOTO: Filippo Monteforte)

Um um jogo defensivo também precisa de ensaio, obediência, muito labor. Em 2004, tivemos um duplo exemplo: a Grécia, campeão europeia de seleções, e Once Caldas, colombiano que conquistou a Copa Libertadores. As partidas que os envolviam eram um horror, porém suas campanhas saltaram aos olhos. Os gregos, nem cotados inicialmente para chegar sequer à segunda fase, venceram duas vezes os anfitriões portugueses com Scolari no banco e eliminaram a então campeã França. O time de Manizales chegou à inédita conquista também com trajetória respeitável. Superou no caminho Santos, São Paulo e Boca Juniors, equipes que já eram, à época, bi, bi e pentacampeão do torneio, respectivamente.  Mais recentemente, quatro anos atrás, uma partida ilustrou o caso de uma retranca bem executada. A Inter de Milão, dirigida pelo pragmático José Mourinho, eliminou o Barcelona nas semifinais da Liga dos Campeões com encolhimento despudorado no jogo de volta, na Catalunha. Após expressiva vitória por 3 a 1 na ida, em Milão, o time se encapsulou no segundo gol e perdeu por apenas 1 a 0 para uma equipe que era uma máquina ofensiva temida em todos os cantos. E uma manchete nunca me saiu da cabeça: A incrível muralha de Mourinho.

De vez em quando devemos render nosso tributos à cidadelas também! Fortificações têm seu valor.



MaisRecentes

O Grêmio não enfeitiça os anseios de Tite



Continue Lendo

Alemanha x Brasil: aprendizado por linhas tortas



Continue Lendo

Messi ameaça driblar o tempo



Continue Lendo