Cantos que ganham jogo e enterram estratégias



Estou eu aqui pensando sobre a força do barulho da torcida no futebol. Dizem meus amigos repórteres Rodrigo Vessoni e Thiago Salata que o eco da arquibancada do novo Maracanã é um trator a impulsionar pernas e esticar braços, se estivermos falando do goleiro. Na final da Copa das Confederações os gols brasileiros despertaram urros que os dois jamais haviam presenciado. Não somente no já exaltado cantar do hino nacional. Nos gols é que a exaltação se deu. No de Neymar,  em especial, o chute forte, no ângulo de Casillas,  para o velho recauchutado monumento quase vir abaixo. Na hora que me narraram isso lembrei de Chico Buarque contando no DVD Futebol que, garoto, ouvia o entusiasmo do narrador no gol de Friaça na final de 50 (o Brasil abria o placar antes da dor do Maracanazo): “Quaaaaaase vem abaixo o Maracanã!”. E ele achando que a construção está mesmo desmoronando. As vozes, os gritos, os cânticos podem torcer e retorcer esquemas táticos, preleções e outras estratégias várias.

A Vila Belmiro, antes de receber esses camarotes envidraçados e dar fim ao alambrado (uma tendência moderna, até porque grade é animalização, vide a transformação na terra da Rainha), era o alçapão. Jogar contra o Santos no acanhado e clássico estádio nunca foi café pequeno. A energia que se transfere da arquibancada para o campo é um item sempre presente no futebol. Qual sempre não foi o temor de jogar na Bombonera, a caixa de bombons do Boca? O alento de gentes em azul e ouro pode ser sintetizado no maluco Maradona dependurado no camarote agitando a camisa gloriosa. E o Fla no Maraca, seja no sua versão antiga ou moderna? Uma massa que faz o concreto pulsar e os adversários tremerem na base.

Ah, mas quando a bola rola você esquece o que vem de fora, asseguram jogadores. Será? A história confirma às vezes e retruca em muitas outras. Obdulio Varella, Schiaffino e Gigghia, uruguaios, calaram 200 mil na nossa tragédia particular. Pode acontecer. Muitas vezes vimos. O efeito contrário também se manifesta. O entusiasmado torcedor, amontoado, pode virar-se contra, vaiar, perseguir um jogador. Há uma semana, João Paulo, alvo da ira da torcida flamenguista, era apupado cada vez que tocava na bola. Um massacre psicológico, como no Coliseu pró-leões. São os dois lados da moeda.

É o 12º jogador, bem sabemos. Sábado passado, no primeiro treino do Corinthians em seu novo estádio, em vias de ser inaugurado, pessoas que lá estiveram saíram impressionadas com a acústica. Um punhado de operários que fazia barulho apenas, o suficiente para reverberar e projetar o que vem por aí. Imagina com a Fiel, o bando de loucos em uníssono!  Por que os atleticanos alertam que quem cai no Horto tá morto? Confiam no taco de seu insuflar. O som do pulmão para o campo. Não são poucos os que atribuem o inédito título da Libertadores do ano passado à força da lotação do Independência. Nele, o Galo não perdeu em sua campanha.



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