O bem que Paulo André já fez



Paulo André já fez muito bem ao futebol brasileiro. Trouxe um bocado de vitalidade crítica a um meio acostumado a ser cordeiro, a abaixar a cabeça para os patrões e lamber suas botas. Os jogadores brasileiros pouca voz tiveram e têm, ainda. Culpa de um país onde a educação é a enésima prioridade.  Nossa cultura da bola é aquela em que o cartola paternaliza e oprime, que faz as normas sem pensar em quem por elas é atingida diretamente. O bom zagueiro e ótima cabeça que agora deixa o Corinthians para jogar no extremo oriente deu a cara a tapa ao colocar sua massa cinzenta a serviço de causas legítimas e urgentes. Um calendário que privilegie condições racionais de trabalho e, por tabela, torne o ‘produto futebol’ por aqui algo decente. Todos se beneficiariam (ou se beneficiarão, porque, ao contrário da atmosfera pessimista, acho que as mudanças virão), talvez exceto alguns pútridos cartolas que só veem sentido no odor do poder a qualquer preço. Para estes, a mudança, a democratização do comando, é um tiro no peito.

Sofrendo muita resistência, inclusive em meio a jogadores, que parecem conspirar contra a própria profissão,  Paulo André resolveu agir. Uniu-se às cabeças pensantes do esporte estigmatizado pelas respostas pasteurizadas e sem reflexão e começou a bater bumbo. Fundou um movimento, provocou gestos e estendeu faixas antes dos jogos, cutucou a alta corte, trouxe o debate.  Aos 30 anos, o zagueiro que escreve, pinta e pensa deu um sopro por aqui. Sua obra já está feita. Se não tem o carisma de Sócrates, um ícone do jogador politizado e indignado com o estado de coisas e o mandonismo da Casa Grande, produziu barulho.

Paulo André para, ouve, reflete e fala. Não muda o tom. Tem sabedoria. Chutar a bola não anula neurônios. É possível conciliar o jogo com a reflexão e o espírito crítico. Nesses meses de “tomada da Bastilha” teve a seu lado figuras de raciocínio. como Juninho Pernambucano, Alex e Rogério Ceni. Gente madura, instruída e que não quer ser feita de boba. Gente que abraçou a iniciativa e percebeu que algo precisa ser feito. Que os artistas não podem ser manipulados pelos homens que tricotam em salas geladas suas perpetuações no poder.

Vai para a China encher as burras, um direito seu, uma oportunidade que lhe apareceu. Interessa aqui o que fez em prol do coletivo. Que novos Paulos Andrés surjam nestes tristes trópicos mentais.



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