Imagina no ano da Copa



O Brasil adora perder oportunidades. Há um masoquismo nesse povo trigueiro, cantado por Ari Barroso em sua aquarela, que cisma em impedir o nosso brado de retumbar. O impávido colosso embaraça-se em suas colossais pernas desastradas. As mesmas pernas que, malemolentes, espantam o mundo com seu samba e a criatividade de sua gente. É um constante andar no meio fio, entre a preguiça de Macunaíma e a virtuose do maestro Tom Jobim. A cinco meses da Copa do Mundo em solo pentacampeão voltamos a deixar a “bunda exposta na janela pra passar a mão nela”, saudoso Gonzaguinha.

No humor autoflagelante que reina desde que o Brasil brasileiro foi escolhido sede do Mundial, sintetizado no slogan do “imagina na Copa”, maltratamos nossa autoestima. O complexo de vira-latas, velho Nelson, não acabou, apenas aperfeiçoou-se com o tempo. O atraso na entrega dos estádios e o preço exorbitante deles vieram a premiar os profetas do apocalipse. Olha aí, tá vendo? O legado será renegado a plano algum. Não aproveitamos a chance. Os aeroportos seguirão vexatórios e a nossa mobilidade urbana imóvel, sufocante. A Copa será linda, grandes jogos, muita emoção, é o futebol, é a vida! Mas o que vamos mostrar da terra adorada entre outras mil para os olhos do mundo?

Nossa biodiversidade única, a culinária, o sincretismo religioso, a miscigenação são pratos distribuídos à exaustão. Não precisam de Copa, já é clichê do Nepal ao Senegal. O Cristo Redentor se vê nas janelas dos cartões postais, como a Floresta Amazônica e o tabuleiro das baianas. Precisávamos fazer o algo a mais, dignificando nossa potência emergente e postulando um lugar efetivo na civilização.

O futebol é patrimônio nacional e o maltratamos mais que a estátua de Drummond na orla carioca. Quando a Copa começar talvez nem saibamos como será aquela que deveria ser a menina dos nossos olhos, o Campeonato Brasileiro. Estamos nas mãos da Justiça, a tratamos como produto de quinta categoria. Até dia 12 de junho, quando Brasil e Croácia abrirão o Mundial no ainda inacabado Itaquerão (chegamos lã?), poderemos ter greve de jogadores nos falidos estaduais. Gente que não aguenta mais ser triturada por calendário enfiado guela abaixo para afagar federações e esbofetear atletas e torcedores.

Assim que a primeira das 64 partidas iniciar-se teremos passado por alguns meses de costura eleitoreira, com cartolas se mexendo para ocupar o prestigioso trono da CBF e seguir brindando o caos. É dessa forma que entramos no ano da Copa. Na alma coletiva há o Maracanazo e o desejo de atestar nosso belo jogo com um primeiro título em casa. Nessa mesma alma reside ainda a incógnita do prognóstico pintado pelo austríaco Stefan Zweig: Brasil, o país do futuro! Pena, não será no ano do Mundial. Oxalá que o bom senso (o movimento e a noção em si) despertem o gigante adormecido algum dia.

Imagina no Brasileirão!
O polêmico rebaixamento da Portuguesa está levando torcedores à Justiça Comum e ressuscitando velhos fantasmas. Já se fala em inchaço do Brasileirão, em retorno do mata-mata. A questão crítica aqui, mais que a fórmula de disputa, é nossa incapacidade de tornar o futebol um produto decente. De nada adiantam as novas receitas milionárias de TV se o oferecido é a inconstância e o desleixo. Se nem sabemos como será a competição como seduzir o torcedor a prestigiar jogos, a se animar?

Imagina nos Estaduais!
A CBF segue não dando muita pelota para o Bom Senso F.C. Os cartolas nacionais, muitos anos embebidos no poder, estão embriagados. Ainda não perceberam o vulto do movimento dos jogadores. O poder inebria, tira o senso de realidade. Em suas salas refrigeradas e nos coqueteis eleitoreiros, os manda-chuvas não se tocaram ainda. Cada vez mais a possibilidade de uma greve torna-se iminente. Cairá a gilhotina? As primeiras rodadas dos Estaduais poderão indicar o caminho.

Imagina pós-Copa!
Quando terminar o Mundial, no dia 13 de julho, qual será nosso cenário? Se a Seleção for campeã haverá um período de ufanismo e ressaca. Mas não haverá mais a perspectiva do evento e toda cegueira que ele pode comportar. Já que perdemos a oportunidade grandiosa de mudar nestes anos anteriores à apoteose precisaremos refletir, e muito, que futebol queremos a médio e longo prazo. E nisso entrarão os dois tópicos anteriores: valorizar o Brasileirão e ouvir os atletas!



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