Diego Costa recebe advertência cara: ‘Ame-o ou deixe-o!’



O sentimento de amor à pátria deve ser espontâneo, como qualquer sentimento humano. Isso faz parte da dignidade do ser. Fazer parte do corpo de cidadãos de um país pode ser algo circunstancial ou não. Você pode nascer, viver e chegar à vida adulta em um lugar sem nutrir amores por ele. Se o rio da tua aldeia é mais belo que o Tejo porque o Tejo não é o rio da tua aldeia, como no poema de Alberto Caeiro (pseudônimo de Fernando Pessoa), é porque seu coração bate mais forte pelo lugar que habita ou habitou. Você pode escolher migrar para outras plagas, enfrentar talvez reações xenófobas, e desenvolver por elas um carinho maior. Todos conhecemos alguém que se afeiçoou por outro lar. Faz amigos, sente-se mais afeito à culinária ou aos costumes, identifica-se mais com as coisas que o cercam. É humano, demasiado humano. E ainda, nada lhe impede, você pode sentir-se partido, amar duas, três pátrias, por razões das mais diversas. Quem haverá de julgar as coisas do teu coração e da tua predileção se não você?

Diego Costa escolheu defender a Espanha em detrimento do Brasil.  Felipão, em acesso zagalliano, estrilou: ”Deu as costas para sonho de milhões’. O sonho de milhões e o sonho de todo mundo? Lembrar do “ame-o ou deixe-o” celebrado nos tempos de ditadura militar não seria exagero. Como se o jogador tivesse chutado o florão da América e conspurcado sua bandeira positivista de Ordem e Progresso. Menos, menos… Deixa o rapaz trabalhar e escolher dentro das regras do jogo! Recorrer a chavões passionais e que tentam desnudar o coração alheio beira a petulância.

E se o sonho do rapaz é defender a atual campeã do mundo, que tem Xavi e Iniesta, dois dos mais festejados jogadores dos tempos atuais? Pode ser esse o sonho de milhões, não? Jogar ao lado de dois dos maiores craques contemporâneos. Sonhos, sonhos são, diria o poeta. O Brasil é pentacampeão, camisa gloriosa, mas não concentra o mundo. O mundo é amplo, os sonhos também o são, e individuais. Julgar isso é desprezar as diferenças. É recorrer a um tipo de pachequice irracional, que ignora a soberania das vontades. Alguns dizem que o atacante fez a escolha por dinheiro, chamando-o de sovina. Onde está a prova disso? Se não tem, como dizia personagem Pedro Pedreira da Escolinha do Professor Raimundo: ‘Não me venha com chorumelas’

O fato de ter jogador pela Seleção Brasileira meses atrás expõe a frouxidão da regra vigente da Fifa, que ignora amistosos (tão relevantes na hora da elaboração do contestado ranking) como freios para atuação por múltiplos países. Isso de fato é ruim porque permite a mercantilização de jogadores por seleções, corrompendo o princípio básico de competições desse tipo. A brecha utilizada por Diego Costa, porém, não significa que ele seja um simples mercantil de pátrias. Surgiu a oportunidade e ele pode muito bem ter se guiado pelo coração. Vive na Espanha há um bom tempo e o sentimento é pessoal. Julgar isso parece excessivo, até presunção. Só não mais excessivo que a covarde movimentação da CBF para pedir a cassação da cidadania brasileira do atacante. Sorte que provavelmente o governo não permitirá uma aberração dessas. Seria a vitória da cartolagem que usa (sempre usou) argumentos patriotescos para perpetuar-se no poder e viver às suas custas.

Quando o Maracanã lotado cantou a plenos pulmões o hino nacional antes da decisão da Copa das Confederações foi comovente. Os comovidos, por motivos pessoais, sentiram-se pertencentes àquele movimento de orgulho nacional. É muito sutil, porém, a divisão entre amor à própria terra e aversão ao estrangeiro. A história humana é repleta do uso do discurso nacionalista que redundou em crimes humanos. Não, a reação de Felipão não é dessa monta, claro. Mas é bom sempre estarmos atentos e fortes!



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