A máquina de triturar jogadores e campeonatos – o calendário



O nível técnico do Campeonato Brasileiro está um horror. O Cruzeiro, dinâmico e surpreendente, é um pregador no deserto. O Grêmio, vice-líder, cultua o jogo que não chega lá a ser exatamente um jogo, mas um conceito. O conceito criado por um técnico que foi um goleador nato, Renato Gaúcho. Tranca aqui e aproveita um lance isolado. E ganha. E sobe na tabela. Porque resultado é o que interessa, o resto não tem pressa. Daí pra baixo temos um bocado de equipes irregulares, limitadas, umas com mais padrão, outras com menos. Desse caldo, 90% das partidas são desprovidas de técnica e bastante enfadonhas. De vez em quando surgem jogos emocionantes porque com muitos gols, como um Cruzeiro 5 x 3 Vasco ou São Paulo 3 x 2 Vitória. Mas o que predomina são partidas modorrentas. Claro, todo ano há partidas modorrentas, porque são muitas em qualquer torneio pelo mundo, é impossível que tudo seja AAA, como nota de avaliador de crédito internacional. Mas no Brasileirão a coisa tá excessiva, alarmante, irritante…

Faz anos que reclamamos de campeonatos ruins, que sempre têm a estrela de um bom time a tentar desmentir isso. Time que acaba sendo uma exceção a uma terrível regra. A bola da vez é o Cruzeiro. À minha cabeça logo acorre a ideia de que é muito difícil ter um grande campeonato com técnicos mais valorizados que atletas, com apenas estrelas veteranas, jogadores de nível médio (os que encontram-se no auge ou a caminho dele  correm rapidinho para a Europa – vide Paulinho e Neymar, que ficaram aqui já em prorrogação e não resistiram à sedução do crème de la crème lá de cima), atletas que achamos ainda em nível competitivo mas com dificuldades de se estabelecer na Europa (exemplos são os de Ronaldinho, Jô e Pato), estrangeiros sem mercado de fato na Europa e, geralmente, das nossas vizinhanças, e promessas. Mesmo com os clubes arrecadando como nunca, em especial com direitos de televisão, a competição segue predatória. Alie-se a isso o bombardeados  de transmissões de campeonatos do Velho Continente, com craques saindo pelo ladrão, estádios empetecados e lotados, gramados atapetados. É uma overdose de bom gosto de longe para o mau gosto de consumo interno. É uma covardia a inevitável comparação. Mesmo com neoestádios custeados por dinheiro público, as chamadas arenas (argh!), não há diminuição consistente dessa percepção.

Dito tudo isto, há um fato claro, pulsando, decisivo no tétrico nível do futebol que aqui se pratica:  calendário estafante que acaba com a condição física dos atletas. Por conseguinte, afeta o nível técnico dos jogos. E, eureka, ele está enfim na ordem do dia. Descobrimos, antes que tarde, a pólvora que nos dinamita. No primeiro terço do ano, sem praticamente pré-temporada, já se joga muito em estaduais inchados. Com demandas naturais como as que vimos este ano, com clubes querendo excursionar para espalhar suas marcas, como fazem os gigantes europeus, e a Copa das Confederações, viu-se o caos. Ano que vem, ele repetir-se-á, com a Copa do Mundo. E como não estamos alinhados com o que se faz no mundo, a Seleção Brasileira volta e meia ainda tira a nata dos clubes. Neymar, no ano passado, ficou fora de boa parte dos jogos do Santos para servir a glamourosa canarinho. Quarta e domingo, quarta e domingo, quarta e domingo. Jogadores daqui a pouco não ficarão em pé. Não há tempo para treino. Com o admirável movimento Bom Senso F.C.cobrando condições mais dignas e entrevistas recentes de atletas que tentam quebrar a servilidade clássica do nosso pé-de-obra as coisas estão escancaradas.

Maldonado, chileno que tem anos de história no futebol brasileiro, deu entrevista ao LANCE!Net ressaltando isso: não tem como times se prepararem, quem mais trabalha são departamentos médico e físico. Alarme total! Mais de um deles já alertou para a queda de rendimento no segundo tempo das partidas. E a quantidade de lesões não estará relacionada a isso? Será que Valdivia, Luis Fabiano, Montillo e Arouca, importantes atletas, devem apenas a físicos não privilegiados suas constantes passadinhas nas casernas médicas.

É um coquetel prestes a explodir. Já temos uma desvantagem enorme em relação ao mundo do topo da bola. Embora pentacampeões do mundo, não podemos ter em nossos torneios o suprassumo da categoria. E ainda deixamos o quadro mais agressivo com um calendário que afaga as federações estaduais e a Seleção Brasileira e deixa os clubes contra a parede. É um esmagamento. Não teríamos um campeonato majestático com um mês de pré-temporada, estaduais mais enxutos, intervalos para respeitar as datas-fifa. Mas com certeza absoluta – ouçam os jogadores – teríamos equipes mais entrosadas e condição física mais em dia. Esse binômio certamente elevaria o nível dos jogos e nos deixaria menos insatisfeitos. A nós, torcedores e críticos, e aos jogadores, que veem seus corpos cada vez mais moídos nessa máquina de triturar.



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