Doutor Agildo não consegue salvar Elias. O drama do gol perdido!



elias

As batidas na porta eram frenéticas. Um “toc,toc,toc” forte, sôfrego, de ansiedade pura. O doutor Agildo abotoou rapidamente a surrada blusa listrada em preto e vermelho, deu uma improvisada arrumada nos cabelos com a mão direita e, de óculos tortos, berrou:

– Já vai! Já vai! Calma!

Doutor Agildo, muito conhecido na paróquia pelas habilidades de sua geringonça temporal, abriu e viu ali o rapazinho mulato, suando, com cara de desespero. Achou que o conhecia de algum lugar, mas esperou que se apresentasse:

– Doutor, preciso muito da sua ajuda. Eu…

– Calma, rapaz. Respira fundo. Bom dia! Quem é você? – cortou.

– Bom dia, doutor! Eu me chamo Elias. Muito prazer – esticou as mãos, suadas e trêmulas

– Você por acaso não é jogador do Flamengo?

– Sou sim. O senhor viu o que me aconteceu ontem? Preciso dessa volta, doutor. Me ajuda?

Ao ouvir o verbo voltar logo doutor Agildo sacou o que se passava. Lá vem mais alguém pedir seus préstimos tecnológicos, sua interferência na história.

– Elias, você quer marcar o gol que perdeu? Quer que o gol feito seja feito? É isso?

– Isso, doutor. Não posso passar por essa humilhação. Está todo mundo gozando da minha cara. Dá essa voltadinha no tempo. Quebra essa. Tenho certeza que não perco aquele gol de novo, foi um acidente. Nem sei como aquela bola subiu tanto. Meu Deus…

Doutor Agildo é um revolucionário. Criou uma máquina que, em até dois dias, retroage e permite interferências nos fatos. Cobra caro, mas diz que a satisfação é garantida, mesmo que sem o dinheiro de volta!

– Que horas aconteceu o fato que você quer mudar, Elias?

– Foi no fim da tarde de ontem, doutor.. Ah, aquela bola veio picando…. Não aguento mais ver essa imagem. Todo mundo comentando em mesa-redonda. Passou 200 vezes na TV. Por minha causa deixamos de ganhar do lanterna e corremos risco de rebaixamento. Se o Mengão cair ninguém vai esquecer. Volta o lance, doutor, eu imploro! – rogou Elias, já de joelhos.

– Você pagará em cheque ou dinheiro vivo?

– Doutor, eu lhe dou meu salário inteiro deste mês. Mas me salva…

Doutor Agildo, então, conduziu Elias para a sala escura e pediu que entrasse em uma cabine prateada, cheia de furos, remendos, fios e uma enorme tela. Colocou uma enorme carcaça na cabeça do jogador e fez algumas perguntas como horário próximo do evento a ser revivido, local, situação e pediu para que ele se concentrasse.

Elias então viu-se ali, correndo na área, e sua cabeça entrou em parafuso. Estava ali, a minutos do lance fatídico. Ficou nervoso, as pernas bambas, o coração em taquicardia…

– E se eu perder de novo? Serei zoado duas vezes ou valerá por uma só? – questionou-se.

Então correu, a bola foi cabeceada, sobrou para ele e pimba. Tudo apagou-se, após um estouro de furar tímpanos desavisados.

– Doutor, o que houve doutor? Foi gol? – questionou, eufórico, enquanto uma fumaça branca e densa recobria seu corpo.

O doutor Agildo começou a tossir sem pausa e resmungar.

– De novo não! De novo não! Mais uma pane técnica. Elias, preciso que você saia um pouco. Houve uma falha no aparelho. Seu gol continua perdido, infelizmente.

Elias pô-se então a chorar e a lastimar quando, de repente, acordou. Olhos esbugalhados, respiração entrecortada. Era sonho.

Não, o gol perdido não foi sonho. Sonho foi que havia um doutor Agildo e uma máquina que lhe resgatasse o gol. Sonho que perdeu a chance de recuperar o gol. Tudo era sonho. Apenas uma realidade existia: o gol perdido contra o Náutico. Com isso terá que conviver pelo resto da sua vida. Não há lance que volte!



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