Muricy, o conquistador, experimenta um novo mister, o de bombeiro



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Muricy é tricampeão brasileiro pelo São Paulo (FOTO: Tom Dib)

Muricy sempre ressaltou sua ânsia por títulos. Após enfileirar Brasileirões, tornou-se assediado por quem busca troféus. Sua impaciência nos clubes que dirigiu quando não vinham contratações que o possibilitassem brigar pelas primeiras colocações sempre foi um clássico do mau humor. E sua coleção de títulos, talvez fruto dessa inquietude, não é nada desprezível. Que o digam os quatro brasileiros (três pelo São Paulo e um pelo Fluminense) e a Libertadores pelo Santos. Nem estou citando os menos expressivos, como Paulistão e Recopa. Seu papel sempre foi o do conquistador. Pois agora, no mesmo clube que o deu esse status, experimentará um papel bem menos paparicado, o de bombeiro. Terá que salvar o clube de um inédito rebaixamento para a Série B. E isso precisará ser feito com rapidez. Falta um turno apenas do campeonato, espremido em menos de três meses e encavalado com um torneio internacional, a Copa Sul-Americana.

A diretoria são-paulina, que migrou da condição de exemplo – ideia muito cultivada pela cegueira que os títulos provocam – para a de catástrofe de gestão, agarrou-se ao rabo de um cometa chamado desespero, bem conhecido no mundo esportivo. A areia da ampulheta está acabando, os resultados não vêm, a impaciência da torcida aumenta e a popularidade de Muricy nas alturas. A resposta era óbvia e emergencial. Por mais que clamemos por organização e ponderação no futebol, trata-se ainda assim de um jogo, dinâmico, emocional, urgente, de estratégias e não permite muito titubeio. Nesse caso não há prevenção nem remediação, há fatos, escancarados. Era cruzar os braços e depois assumir a responsabilidade da omissão ou recorrer à evidente carta na manga.  Por mais inteligente e admirável que seja a figura de Paulo Autuori, ele não estava conseguindo fazer o time reagir.

Muricy é um caso muito particular no mundo futebolístico. Adorado e detestado em proporções gigantescas. Os exaltadores grifam sua eficiência – fator que sofreu alguns abalos na segunda metade do seu comando no Santos, com um time pessimamente montado e uma certa morosidade. Os detratores reclamam de sua filosofia de jogo, apelidada de Muricybol, e sua irascibilidade nas entrevistas. Os técnicos, supervalorizados ou não, são a figura de proa quando a coisa vai mal, principalmente. Não havia mais para onde correr. A sombra de Muricy era um fardo para Ney Franco e seguiu sendo para Autuori. Ele estava ali, meu filho, pronto para assumir. Já tinha dado pistas à imprensa, como no Papo com o Benja, deste LANCE!Net, de que salivava volumosamente com a possibilidade de reassumir o comando técnico tricolor.

Já vimos teses serem feitas, quebradas e refeitas no futebol. Quando deixou escapar pelos vãos do dedo um título brasileiro que desenhava-se nas mãos do Palmeiras, Muricy foi reavaliado. Quando. no ano seguinte, levou o Fluminense ao topo nacional após mais de duas décadas, recolocado no panteão. O título da Libertadores pelo Santos o guindou a patamar maior ainda, pois dinamitava os queixumes quanto a seu rendimento em torneios. Agora será provado como o homem-resgate. Não pode-se negar, no entanto, que tenha mostrado coragem ao aceitar assumir o clube onde recobriu-se de glória em momento único na sua história. Cair será dar uma borrada no retrospecto. Iça-lo do mundo da possível degola, por outro lado, reafirmará sua condição e mostrará uma outra habilidade, a de bombeiro.

Não esqueçamos: o futebol faz coisas que até Deus duvida!



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