Jogo sem torcida é punir milhares sem que se puna os brigões



Corinthians e Vasco terão que fazer quatro jogos sem a presença de seus torcedores. Assim determinou o tribunal esportivo em resposta ao vale-tudo que se viu na arquibancada durante o jogo entre os dois times, no Mané Garrincha (nome de quem, com pernas tortas, fez do jogo o lúdico, não o conflituoso), em Brasília. A ação de violentos certamente reincidentes, que amam a violência, gerará punição aos clubes. É correto? Mais ainda: é certo que a maioria dos apaixonados e pacíficos torcedores seja privada de ver jogos de seu clube porque um grupelho de vândalos faz do futebol passeio para sua exposição de “brutamontice”? Tomamos então a parte pelo todo e colocamos na conta do coletivo a ação individual?

Muitos que são favoráveis a esse tipo de punição alegam que ela forçaria clubes a pararem de passar a mão na cabeça de torcidas organizadas (apontadas como as fontes de arruaça) e financiá-las – um costume cuja existência no Brasil todo é de conhecimento geral, com farta distribuição de ingressos e outras regalias. Por esse raciocínio, os gestores do espetáculo alimentam a desordem ao facilitar a presença desses indivíduos nos jogos (não há comprovação de que apenas membros de organizadas participem desses tumultos, mas há evidências múltiplas de que em geral eles saem de seus costados).  É como se não apenas cruzassem os braços, mas os dessem a eles.

Suponhamos então que os clubes, repentinamente, sentindo na pele os estragos que esse bando provoca, resolvam mudar de atitude e corte relações com as organizadas. Diante disso, sem acesso facilitado a bilhetes, por exemplo, irão frequentar menos os estádios? O rasgo atingirá um tecido grande, que comporta gente de diversas faixas econômicas (não passa de estereótipo preguiçoso e preconceituoso achar que só pessoas de baixa renda são associadas a torcidas organizadas) e muitos não-violentos. A falta de subsídio não é garantia de que a turma da arruaça se afaste dos jogos. Por outro lado, também não é assegurado que gente comportada deixe de pagar o preço de algo que não é seu. Ah, argumentam alguns, mas no efeito cascata as próprias organizadas terão que dissipar os maus elementos, pois estarão sendo prejudicadas. Será que as coisas funcionam mesmo assim?

Dito isto, expresso minha contrariedade com esse pensamento. Há um problema macro que o tribunal esportivo, cuja alçada, obviamente, é limitada, tenta resolver no micro. Quem comete um delito (brigar é um delito) deve ser punido individualmente. Dentro do espírito liberal (não confundam com individualismo no sentido egoísta do termo) cada um é responsável e deve pagar por suas atitudes. Desde os filósofos europeus do século XVII sabemos que o estado é um pacto de convivência e quem o dinamita deve pagar individualmente. No Leviatã Thomas Hobbes fala dessa construção para buscar o freio à iniciativa ilimitada de pessoas. É assim que leio. Se a impunidade grassa é porque toda a cadeia está esgarçada. Fazer com que todos sejam prejudicados pela irracionalidade de alguns não combina e não resolve. Não sou especialista em direito e nem tenho amplo conhecimento da teia que envolve tudo isso. Porém, como, fundamentalmente, cidadão dessa (des)ordem social não vejo sentido em estragar a festa dos milhares que amam o jogo e seu clube para retaliar meia dúzia (sim, meia dúzia!) de infelizes que fazem do esporte uma praça de guerra. Se seguirmos achando assim estamos assinando nosso atestado de competência. Estamos acostumados com a cultura da impunidade no país. Mas quem mata, rouba, forma quadrilha, extorque sempre é visto como indíviduo e a ele se espera forte e pronta punição. Por que no futebol quer-se que os danos sejam então coletivos? Não está o esporte inserido na sociedade? Ou é dele um organismo à parte, como muitas vezes quer fazer crer uma entidade como a Fifa?

Claro, os clubes não deveriam ser gentis com os baderneiros. Claro, a massa não deveria repetir os cânticos violentos que algumas torcidas entoam. São coisas que incomodam e contribuem para o problema, mesmo que indiretamente. Mas o coração em disritmia está no fato de que fere-se e morre-se no futebol sem que os causadores dessas feridas e mortes sejam de fato punidos. Quando alguém matar e não for condenado determinaremos toque de recolher nas ruas porque somos incapazes de prender o assassino? Puniremos a vizinhança de conviver porque não sabemos o que fazer com o criminoso? Na minha cabeça, o mesmo aplica-se a jogos de futebol. Não me convence a ideia de que chegamos ao ápice de violência e medidas radicais, mesmo que afetem inocentes, sejam tomadas. Arrancam-se os aneis e preservam-se os dedos. E assim justificamos nossa inépcia para penalizar os reais culpados, que são os brigões.



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