E a Comnembol expões suas veias abertas na América



As veias da América Latina dilatam-se mais sob a tutela da Conmebol. Elas quase deixam o sangue vazar, em hemorragia difícil de estancar. Veias abertas da América… Pego emprestado o clássico título da obra do uruguaio Eduardo Galeano tal a expressividade que ela dá. O subcontinente tem um futebol classe A e uma organização classe Z. Contemplamos os dois extremos do alfabeto. Não é apropriado dizer que é varzeana porque na várzea há muito mais planejamento e bom senso. Seria uma ofensa. Até outro dia, o sorteio da Copa Libertadores, a vitrine máxima da entidade, era feito sem a definição de uma porção de times. Tínhamos então o nome do país seguido de um número, um troço ridículo, uma incapacidade medonha de fazer-se um produto decente.

Vejam vocês que nesta quarta-feira a entidade máxima do futebol de nossas plagas coloca duas decisões de torneios seus ali, juntinhas, competindo entre si. De fazer inveja a qualquer canibal. Autodevorar-se é preciso! Soy loco por ti, América! É difícil entender a falta de paixão dessa gente pelo jogo dos jogos. Estão interessados em suas relações paroquiais, suas regalias, vitalices e coisas do gênero. Apenas a ameaça de um dossiê da Fifa fez um cartola que se insinuava eterno abandonar o barco.

O que dizer de um torneio tão importante que para e deixa as semifinais em suspenso, a esperar outras competições, como Copa América ou Copa das Confederações, pra depois voltar? Como permitir que clubes planejem-se nesses moldes? Agora vem a questão do pleito do Atlético pra mandar o jogo no Independência. Pegou carona nos precedentes e maquiagens. Não dá para recriminar dado o histórico e as frestas sempre abertas das tais veias. Nos acostumamos por demais aos conchavos e aos populismos. Parece que gostamos de vestir a carapuça do subdesenvolvimento. Faz-se um regulamento e depois tenta-se costurar uma politicagem. E faz-se um regulamento difícil mesmo de cumprir, tendo em vista que muitas cidades pelo continente não abrigam praças esportivas populosas. O Defensores del Chaco, que guarda, como nossa história, o nome das sanguinolentas batalhas pela libertação – olha a inspiração do torneio! -, só passa na régua do mínimo de 40 mil por um esforço malandro, espremendo a fórceps. Dizem (por que duvidar?) que essa determinação mínima de espectadores é para poder comportar os zilhões de convidados da Conmebol. Estamos muito mais fincados à política que à bola, esse é o câncer em metástase por aqui. Na hora do filé, devem entrar os camaradas, camarilheiros e carcamanos.

Como cantou Caetano, “el nombre del hombre es pueblo”. E esse “pueblo” nunca tem vez porque o privilégio é para as costuras. San Martin e Simon Bolivar foram os libertadores e estão pessimamente representados pela gestão da Conmebol, que prende mais que solta. O Galo, forte e vingador, caminha para um título que seria dos sonhos e cheio de mérito. Mas a Conmebol palmilha a largos passos para entrar no Guiness Book do caos.



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