Do Maracanazo para o ‘abraçaço’



Do Maracanazo para o abraçaço. O Brasil foi passando feito uma máquina por cima do imponente futebol espanhol como que por contágio. Tudo começou antes de a bola rolar. O hino cantado à capela, que tornou-se um clássico da rebeldia ao cerimonial inflexível da Fifa, contaminou o campo e as arquibancadas. Foi um Maracanã infernal, como descreveu o Marca, diário esportivo espanhol. E quem viu pela telinha também arrepiou-se. Uma catarse em um país um pouco estafado do seu atual estado. Em apenas 120 segundos, Fred fez um gol improvável, a perna caída surgiu sabe-se lá como, em espasmo, e ludibriou Casillas. Foi um gol macunaímico, meus amigos! A distância da bola para as pernas do atacante e para as mãos do espanhol parecia a mesma. E todos lá foram se misturar às primeiras fileiras de torcedores, em mais uma ruptura ao protocolo da tal “entidade máxima do futebol mundial”. Misturaram-se às gentes, pertençam elas a que classe foi, pois aqui é a metáfora do encontro, cuja vida é a arte, bem demarcou o poeta. Com um pouco de imaginação, que futebol também é um exercício inventivo, laçou-se o choro dos nossos avós 63 anos atrás com o torcedores do novo milênio. O mesmo repetiu-se após o golaço de Neymar, de potência e molecagem afirmativa, ainda no primeiro tempo.

“Dou um laço no espaço pra pegar um pedaço do universo que não se vê”, canta Caetano Veloso na música-tema do seu último álbum: Abraçaço. Foi o que fez a turma de Felipão. Deu um laço na Espanha e pegou o pedaço do universo verde-e-amarelo que andou perdido. Um enorme “abraçaço”. Verdade que Copa das Confederações tem sido uma especialidade verde-amarela, não à toa foi o quarto título, o terceiro em série. E, algumas vezes, com futebol refinado, como do famoso quadrado mágico de 2005 que não se confirmou no Mundial de 2006. Mas agora, de pronto, derrotar a Espanha paparicada de forma tão soberba é para se abraçar mesmo, sem relativizações e coisas várias.

A Espanha foi reprimida no Maracanã. Foi punida, sem que merecesse exatamente. Pois o toque de bola tão cantado e decantado nos últimos anos só fez deslumbrar. Mas tanto falaram que do Brasil o estilo foi roubado que a turma se enfezou. Com Felipão, um técnico que talha os times com a faca da emoção, não propriamente com o jogo artístico, deu-se o devoramento. Pouco se viu a Fúria em campo. Deem uma espiada nos novos almanaques e notem que, roubando e parodiando o preceito bíblico, é “mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha que golear a Espanha atual”. O clima da torcida infiltrou-se nas veias dos jogadores e o time então passou garboso pelo fundo de uma agulha. O técnico, experimentado, conhecedor dos truques motivacionais, trouxe isso para o time. Deu no que deu!

Alguns concederam os braços a esse “abraçaço”. A disposição da torcida, vista com desconfiança pelo nosso desábito de sediar competições de seleções, foi uma delas. O destravamento de Neymar com a camisa amarela, como se, num piscar de olhos, estivesse acostumado a transformar grama em ouro, foi um toque de Midas. Toque Neymidas, já construindo sua legenda. Outro que conduziu de clube para a Seleção sua tarimba foi o volante Paulinho, com o gol nos estertores contra o Uruguai, no que pretendiam os celestes desta vez um Minerazo. A disposição de Fred, após dois primeiros jogos em branco e açoitato por gols de Jô, em sair da zona de conforto da área e buscar a bola, caindo pelos lados e voltando pra marcar. Os ouvidos moucos de Hulk para as críticas e caretas. E o renascimento de Julio Cesar que, quando não pega o pênalti, agiganta-se e sopra a bola para fora.

Copa das Confederações não é Copa do Mundo. Alemanha e Argentina são outras duas ameaças que não estiveram neste torneio mas no maior estarão. Haverá o dobro da expectativa, o triplo das seleções, o quintuplo da audiência e o decuplo do frenesi. Mas foi um belo ensaio. Foi um abraço apertado para uma seleção que vinha tão pobrinha nos últimos anos, cercada de desconfiança em seu rejuvenescimento e olhar de soslaio.



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