A poesia espanhola e a prosa brasileira invertem a história



O sonho tá na boca de todos. Mas não com recheio de doce de leite ou um creme qualquer, na iguaria célebre das padarias. O sonho, com silhueta de palavra, com a doçura do momento, foi pronunciado à exaustão após a definição de qual será a final da Copa das Confederações. O técnico espanhol, Vicente Del Bosque, com suas expressões à Papai Noel, disse que enfrentar o Brasil no Maracanã é um sonho. Os jogadores espanhois, do zagueiro Pique ao atacante Fernando Torres, reverberaram a ideia. Em redes sociais e aos microfones mostraram o êxtase. O mesmo expressou Neymar, que na partida irá defrontar-se com um punhado de futuros companheiros de Barcelona. Não é sonho, é realidade. O grande jogo acontecerá. Todo mundo queria! Todo mundo ansiava!

Desde que a Espanha conquistou a Eurocopa de 2008, ali para muitos ainda uma surpresa dada a fama de “pipoqueira” da Fúria, o encanto nasceu. O toque de bola, o tik-taka à Catalunha, que tem no Barcelona seu exemplar fundamental, foi colocado como herdeiro do antigo futebol brasileiro. Pep Guardiola, guardião do estilo da bola artística da cidade do artista Gaudi, alertou antes da final do Mundial de Clubes que estavam praticando o que antes era a essência do jogo desenvolvido no país sul-americano. Houve uma transferência de técnica então? A filosofia pegou sua nau e fez o caminho inverso ao dos colonizadores? o Brasil conquistou a fama de país do futebol, uma meia verdade sob o ponto de vista da paixão, por ter conquistado cinco Copas do Mundo e ter feito do jogo uma excelência nos Mundiais de 58, 62 e 70. Os troféus mais recentes, de 94 e 2002, premiaram muito mais um jogo físico, de resultado, embora detentor de atacantes fenomenais como Romário, Rivaldo e Ronaldo, sem o coletivo mágico, por exemplo, daquele time de Tostão, Gerson, Rivellino, Jairzinho e Pelé.

É como se das lições de arte do México de 70 o futebol espanhol, e suas canteras, tivesse retirado a cartilha. Enquanto nós passamos a cultivar o jogo dos europeus, eles, na contramão, foram atrás do que mais admiravam, o nosso. No formidável livro “Veneno Remédio, o futebol e o Brasil”, o professor José Miguel Wisnick menciona uma ideia do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini que dizia, em um interesante artigo em que compara a linguagem do futebol com a da literatura, ser o Brasil, como outros sul-americanos, praticante do futebol poesia, e os europeus do prosa. Enquantos os brasileiros cultivam o drible, a magia do jogo, os países da velha civilização faziam o jogo sistemático, mais duro, sem ‘firulas’. Um pouco disso se inverteu. Não em relação ao drible, mas nos fundamentos técnicos, a Espanha resolveu fazer um jogo mais plásticos, de ballet, e nós passamos a cultivar um jogo mais pragmático.

Afora teorias, deve-se a essa mudança toda a expectativa gerada por um Brasil e Espanha. É o embate da história com o momento, que um dia transformar-se-á em história também. O jogo era esperado para a Copa das Confederações de quatro anos atrás, na África do Sul. Não rolou, pois os europeus foram bisonhamente eliminados pelos Estados Unidos. No ano seguinte, no mesmo local, foi a vez de o Brasil impedir que o duelo acontecesse, na Copa do Mundo, ao perder para a Holanda, exatamente o rival espanhol na decisão. Enfim, o encontro se dará. E em um jogo oficial! E em uma final! E no Maracanã! Não será definitivo para essa geração espanhola, que devorou muitos títulos. Muito menos para recolocar o Brasil no pedestal da bola. Mas mostrará caminhos, lições para nós e para eles, certamente. Nos resta saborear, que disso também é feito o esporte. De prazer!



  • Leonardo

    Espero ansioso que o Brasil amanhã pratique o mais legítimo e original futebol de campo de pelada! Essa foi sempre a nossa essência, que muitos hoje insistem em negar como o que de mais espetacular se praticou no futebol mundial!

    Que nossos jogadores não abdiquem da vontade de atacar! Da ginga para cima do adversário! Do drible desconcertante e fora de hora só por provocação! São essas coisas que sempre fizeram do futebol brasileiro o futebol brasileiro!

  • gbkratos7

    São jogadores não bailarinos!!!!

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