Maracanazo – Uma tragédia que não se apaga



No imaginário brasileiro ficou o Maracanazo. O Uruguai, a Celeste Olímpica, já tinha um título mundial no bolso, em terreno próprio, duas décadas antes, e com o capitão Obdulio Varela mitificou-se naquela tarde do outono de uma nação em construção. São países vizinhos, o que já justificaria algum grau de rivalidade. Mas o Paraguai também divide fronteiras no sul tupiniquim e não há lá muita rixa que se considere. A culpa das trombadas entre brasileiros e uruguaios remete àquele 16 de julho de 63 anos atrás. Não fossem o episódio e as coisas esmaeceriam. Não houve só o silenciar do Mário Filho. Outros grandes embates marcaram o confronto no transcorrer da história. Mas tudo passou a ser demilitado, traçado e espetado por aquela frustração coletiva nacional.

Sempre que há um Brasil x Uruguai o letárgico e emocional pensamento se volta para a única Copa jogada no país dos múltiplos ecossistema. Ano que vem, caso o Brasil fature o título, talvez desidrate um pouco a história, embora fatos não cansem de comprovar que a memória coletiva é um pouco temperamental. Ouso dizer que apenas a taça obtida diante da própria Celeste será capaz de enfraquecer o passado.

Quanto mais o tempo passa, sobram menos testemunhas das dores do ano que dividiu o século. A borracha do tempo é balsâmica e cruel. Nesta quarta, Paulinho, Neymar, Fred, Suarez, Fórlan, Cavani e turma terão no sangue, sabendo ou não, um pouco de corrimento histórico. Eles jogam com o peso nas costas dos fatos já escritos. Podem não ter consciência disso, mas o entusiasmo pelo jogo, à parte a motivação natural de uma semifinal, deve-se à situação histórica.

Os 11 titulares brasileiros de 50 hoje são saudosos, não estão mais aqui. O pobre Barbosa morreu, em extrema pobreza, pagando pena superior ao que até mesmo a lei brasileira prevê para crimes reais. Esse foi seu doloroso discurso tantas e tantas vezes em entrevistas comovidas. Dos 11 bravos uruguaios, que fizeram o épico da pequena nação debulhando o gigante ao lado, resta “apenas” Gighia. Ironia do destino que tenha sido ele o autor da facada no peito verde-e-amarelo. Aquele que, no chute enviesado, nas imagens em preto-e-branco com poeira deslocada, prorrogou o complexo de vira-latas. Mas se quase não há testemunhas entre os protagonistas, há a lembrança, um fantasma que promete eternidade. É ela que alavancou o clássico, fez dele mais que um jogo qualquer.

Na festejada vitória por 3 a 1 na semifinal de 70, no México, a memória seguiu fazendo troça. Sobreviveu! Nem mesmo a quase repetição da data, um 16, porém de julho, em 1989, num final, com vitória brasileira por 1 a 0, no mesmíssimo Maracanã, serviu para apagar as chagas. Sobreviveu! Não dá nem para cogitar que os fáceis 3 a 0 na decisão continental de 99 tenham maquiado as cicatrizes. Mas quatro anos antes, quando os uruguaios se deram melhor na final do mesmo torneio, em Montevideu, as lembranças enrobusteceram. Os inapeláveis 4 a 0 tapuias nas últimas eliminatórias, no tal mítico centenário, também não foram capazes de botar um esparadrapo na cara da história. E, certamente, um triunfo nesta quarta não terá essa serventia.

O que aconteceu em 16 de junho de 50 posterizou-se. A humanidade repete suas agruras em alto e bom som. Caso os deuses do futebol não urdam uma decisão entre os dois para o dia 12 de julho de 2014 o trauma não poderá ser mitigado. O negócio é tocar a vida, com cinco títulos mundiais no lombo e a sabedoria de que mesmo os grandes tem seus calos permanentes.



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