Mais respeito à vaia do fígado, senhor Blatter! Cadê o fair play?



A vaia é a manifestação do fígado. Brasileiros estão tão fartos de políticos e cartolas que o fígado clama. Um suíço, na pose europeia remissiva aos tempos de colonização, tentou repreender: “Cadê o respeito e o fair play”, em português com sotaque. Então veio a vaia mais altissonante, rebelde. Um uuuuuuuuuuuuuu, lá das cavernas figadais. Até senti pena da dona Dilma, um ex-militante judiada pela repressão, uma presidente bem intencionada, mas… Mesmo que a vaia parta de coxinhas, como dizem por aí, ela representa insatisfação.

O brasileiro gosta de bagunça, repete o senso comum, dando às vaias a coloração da baderna. Não é isso não. Prefiro apostar no velho “basta”. Um país, que, após viver duas décadas de podre ditadura e vive uma redemocratização a passos lentos, acostumado a ler e ouvir sobre corrupção em escala desproporcional. Não há gente de terno e gravata que se salve. Juntou multidão em eventos e discursos protacolares, bem típicos das aberturas de eventos da Fifa e de comitês olímpicos – lembremos as vaias a Lula no começo do Pan – vem a tiracolo o urro do cansaço.

Ao tentar domesticar as massas com a repreensão, o presidente da Fifa acabou bancando o ridículo. O professor europeu não entendeu que não conversava com alunos. De seu escritório em Zurique não conhece a alma brasileira e sua rotina, seu cotidiano. As vaias foram o som de tanto desmazelo. Que ele não conhece, mas nesses anos de (des)organização para as copas deve ter ouvido falar. Se bem que ele vem de um paraíso fiscal, um país que abriga muitas contas que buscam a liberdade de impostos e fugir dos olhos das autoridades nacionais.

A vaia dos milhares de fígados coléricos deve ter deixado o figado de Blatter desgostoso. Claro, ele quer palmas. Ele dirige a entidade que se orgulha de ter mais filiados que a ONU (quantas vezes ele, e seu agora proscrito antecessor, não repetiram isso?) e espera aplausos. Mas os brasileiros, com estádios financiados com dinheiros público e a provável falta de obras de mobilidade urbana prometida e o caos do dia a dia estão pra isso pouco se lixando.

A vaia de bêbado pode até não valer, como cantou Tom Zé em apoio a João Gilberto, vaiado em show de inauguração anos atrás. Mas a vaia da exaustão, de tanto espólio, é digna. Pode ser um pouco espírito da galhofa. Mas junto a ele vem o recado: “Não estamos satisfeitos com o país!”



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