A impaciência, o mercado e a nostalgia – são-paulino quer Muricy



Com Muricy, o são-paulino viveu um período de hegemonia nacional. Foi soberano, como o clube se autoproclamou, no Campeonato Brasileiro por três anos seguidos. Quatro anos após a introdução do sistema de pontos corridos, o clube cumpria a profecia de que, com melhor planejamento que os demais, sobraria na principal competição. Por outro lado, o time enamorado das competições internacionais, com fetiche por Libertadores e Mundiais de Clubes, derrapava no torneio continental. Pelo coro no jogo contra o Goiás, o torcedor parece estar saudoso de um dos lados da moeda: o período de proeminência dentro das fronteiras. Mesmo que represente a glória na competição do mérito do rendimento em detrimento daquele nos imponderáveis mata-matas. Ou melhor, o são-paulino sente-se saudoso dos tempos de êxito internacional, mas mais ainda de ser um time ganhador. E a última lembrança de tempos doces é a do tri brasileiro, com Muricy no comando.

O treinador, recém-demitido do Santos, vive sob julgamentos controversos desde sempre. Para uns, sua filosofia de jogo é pobre, simplista, não propõe nada de novo. A bola área é seu recurso recorrente. Não valoriza jogadores de base, é rabugento com a imprensa e pouco afeito a criar coisas novas. Para outros, é um cara competidor, vencedor, cujo currículo fala por si só. E, ao que parece, é a isso que se abraça boa parcela da torcida tricolor. Torcida que cantou algumas vezes o nome de Telê Santana, tido e havido como o tutor de Muricy. Não há como escapar do paralelo, ainda mais pela ironia das filosofias de jogos bastante distantes de mestre e pupilo.

A impaciência do são-paulino é a impaciência clássica do futebol. Faltam resultados recentes. Na Libertadores, o time tem vivido a sina de eliminações para rivais nacionais. Não consegue sequer chegar a uma final de Paulista desde 2003, quando perdeu para o Corinthians – depois houve o título de 2005, mas o sistema era o dos pontos corridos. No Brasileiro, bom, esse já foi aqui registrado: foi áurea na época de Muricy e desde então brigar por título foi quimera. Muricy está no mercado. A torcida saturada. Os dois fatores, juntos, explicam a reação. Nostalgia é a estrela-guia neste momento. Pior para Ney Franco, que tenta se afirmar no cargo e viverá uma pressão insana por resultados, com tolerância na rés-do-chão.

O elenco são-paulino está longe do desprezível. No Brasil, é dos mais bem fornidos. Como não respeitar um time com individualidades do jaez (aqui é uma homenagem ao parlatório do presidente Juvenal Juvêncio) de Rogério Ceni, Lúcio, Jadson, Ganso, Luis Fabiano e Osvaldo? Só louco, meus amigos. Só dementes! O time pode dar liga e, em alguns poucos momentos desta primeira fatia da temporada, como naqueles minutos contra o Galo, até a fatídica expulsão de Lúcio, foi brilhante. O domínio na primeira fase do Paulistão, com gordura dar e vender, é um sinal de que o time tem mais vocação para a vitória que para a derrota. Porém, nas duas competições as quedas foram precoces – perder para o Corinthians na semifinal estadual não seria precocidade não fosse o contexto. O caldeirão então está formado. O técnico das lembranças mais açúcaradas de passado recente está aí dando sopa. O título da Copa Sul-Americana não foi suficiente para criar empatia de Ney Franco com o torcedor. E o jejum de títulos mais almejados impaciente uma torcida acostumada ao topo. Até quando essa corda suportará? Difícil imaginar que vá suportar e parece que o rompimento não tardará a acontecer.



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