Amor e ódio: Ceni, um mito em atividade



Rogério Ceni gera amores e ódios de forma raríssima. Isso dá a dimensão da grandeza do sujeito. O epiteto de Mito, cunhado pelos são-paulinos, encaixa-se à perfeição naquilo que tem de essencial: saiu da esfera dos normais, dos mortais, e entrou em seleto grupo que levita, acima, da naturalidade atual. Não acima do bem e do mal, pois assim ninguém está. Mas acima das visões banais, que cercam os jogadores comuns. O grosso dos não são-paulinos – isso não é fundado em estatísticas, apenas em percepção comportamental recorrente – torcem quase que fanaticamente para que erre, tome frangos, perca pênaltis, quebre a perna e o diabo a quatro. Isso tem nome: ódio. Ódio por Ceni simbolizar como nenhum outro jogador moderno um clube brasileiro. A costumeira comparação com Marcos, outro jogador, curiosamente goleiro, que defendeu apenas um time com sucesso nacional e internacional, esbarra na forma e no conteúdo. O palmeirense é querido, em geral, por alviverdes e rivais. O jeito simples, interiorano, boa praça, caiu na simpatia coletiva. Mesmo que tenha sido dos maiores da posição, campeão do mundo com a Seleção, a personalidade agrada às multidões. Ceni sempre reuniu em si o atleta e o torcedor, com ares de capitão, dono do pedaço, demarcando terreno, apontando os caminhos convictamente. Há quantos anos não se fala que um dia poderá presidir o clube? Há quanto tempo sua liderança é óbvia?

Muitos dos seus detratores veem sinais de arrogância no que parece muito mais um caráter firme, uma imponência de líder. Alguns fazem relativizações técnicas que soam absurdas. O vezo de ajoelhar-se virou chacota. E as inúmeras defesas de reflexo raro que fez nesses anos todos? A célebre espalmada “impossível”, como se o braço ganhasse um apêndice instantaneo, no chute do Gerrard, do Liverpool, na final do Mundial de 2005, é dos lances mais genais que recordo. Lembro-me de que quando apareceu no “Expressinho”, no início dos anos 90, me chamou a atenção a elasticidade e a rapidez de reação. Vieram unir-se a essa técnica notória as virtuosas cobranças de falta. Tornou-se especialista na bola parada e passou da marca de cem gols. Maior goleiro-artilheiro do mundo!

Ceni sofre nas derrotas. Está no semblante, no olhar, nas declarações. Ele vive, já quarentão, o São Paulo de palmo a palmo. O sarcasmo de torcedores rivais quando falha deixa à mostra o incômodo. Não queriam os santistas que Robinho jamais tivesse deixado o clube? Ou os corintianos que Ronaldo tivesse jogado desde sempre com a camisa alvinegra? Ceni dá essa solidez para a paixão. Ele é o cimento e o concreto dela. É um ídolo completo, de fato, não há senões. Nas últimas duas décadas São Paulo e Ceni confundiram-se. É como Totti na Roma ou Gerrard no Liverpool. Craques-torcedores. Rendem títulos, amores e memória, muita memória. Impõem o peso de longa trajetória. Pensando bem, a aversão rival é justificada. A inveja transborda no futebol como na vida. No íntimo, normalmente confessado apenas nos divãs, os oponentes admiram Ceni. É um ódio de fachado. Desejavam ter seu próprio Ceni e gritar isso aos quatro cantos. Nenhum clube brasileiro atualmente conta com uma figura dessa estatura em suas entranhas. Dificilmente terá nos próximos anos, tendo em vista o voraz mercado da bola, a líquida relação jogadores-clubes que impera e o tempo que se leva para levantar um prédio com tanto ouro. Devemos, nobremente, reverenciar quem, à luz do capital, ainda dá alma para a bola.



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