Vaia a craque também vale. Neymar recebe os apupos do amor



Campeonato Paulista jogo Santos x Corinthians

Neymar, bem-vindo ao mundo das vaias! Ela é como o pop, é o próprio pop, não pouca ninguém. É, antes de tudo, uma expressão de carinho. O atacante santista, tratado como a salvação da pátria no Mundial de 2014, está acostumado às flores. Mas as flores, com o perdão da infâmia com os verbos de Augusto dos Anjos, são a véspera dos espinhos. Quem reina tem que saber que os súditos às vezes se rebelam. Mas se rebelam porque amam. Os apupos dos próprios adoradores, acostumados aos dribles, gols e títulos proporcionados pelo moleque do moicano, são resultado da expectativa de uma nova lua de mel. Da árvore frondosa do talento o que se espera são frutos constantes, cada vez mais brilhantes e maduros. Nem sempre é possível, nem sempre será e um dia, como é da vida, cessará. Aos 21 anos, com um caminhão de títulos e façanhas precoces com a camisa alvinegra, uma pequena má fase gera vaias. Amor com amor se paga. A torcida idolatra e quer exibições de gala. Quando não vem, a vaia dá seu recado: acorda! É assim que a arquibancada reage, psicologicamente a incentivar seu menino o fazendo sentir-se provocado.

Os urros impacientes fizeram Neynmar soltar um desabafo: “Ainda mais por tudo que a gente fez pelo clube…” No uso do plural personalizador está o erro vital. Embora dissesse não ligar para as vaias, acusou o golpe no queixume, na fala ressentida. A fidelidade do torcedor ao jogador acompanha o desempenho. Salvo meia dúzia de Dalai Lamas que olham o todo, as massas olham as partes. E sabedoras de que o talento está ali, presente em carne e osso, dele exigem sempre. Certa feita João Gilberto, com seu violão único, foi vaiado por um bando de “burgueses”, segundo Caetano Veloso. Tom Zé, companheiro de movimento Tropicalista, então compôs a bem-humorada “Vaia de bêbado não vale!”. Neymar, como artista da bola, não da canção, não teve a alternativa da expressão escrita, falada ou cantada. Mas pode responder com belas atuações. O seu troco artístico à bílis dos inquietos torcedores é o gol, a assistência, a vitória. E nisso ele tem um trunfo danado. Bastará uma boa exibição para os aplausos tomarem conta.

Essa relação dicotômica torcedor-ídolo é um clássico no futebol, é um juramento da vida. Quem ama também briga. Vide os casais. É uma tensão que, não exagerada, está no espírito da coisa. Não se vaia os ruins, os pernas-de-pau. Por esses, o desprezo é uma constante. De onde nada se espera, nada mesmo vem, reza a sabedoria popular. De certa forma, craque vaiado é craque legitimado. Os rivais vaiam para desconcentrar, em reconhecimento de que precisam tentar interferir para que o assombroso talento seja retido. Os seguidores vaiam pela não correspondência da expectativa. Quando Neymar foi aplaudido por rivais cruzeirenses, em jogo do ano passado, a interpretação de muita gente foi a do aplauso dissimulado, do protesto contra os seus. Ao reverenciar o ídolo adversário reduzia os jogadores da sua equipe ao status humilhante. Neymar, aplaudido por oponentes e vaiado por aficcionados vê, assim, que já está na tribo dos geniais. Dará sempre respostas em campo, sem precisar bater os pés e reclamar. A vaia é o aplauso reprimido, adiado para a rodada seguinte. O torcedor é um sentimental!



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