Vamos, Kevin, não chores, hoje tem jogo do San Jose!



– Vamos, Kevin, não chores, hoje tem jogo do San Jose.

Talvez o pai do menino de 14 anos, que teve a vida estupidamente extirpada por um sinalizador na última quarta-feira, tenha dito ou pensado isso. A frase é uma paródia de lindíssimo poema Consolo na praia, de Drummond, autorreferente, quando ele fala das dores da vida e solta um sopro de alegria: ‘Vamos, Carlos, não chores. Hoje tem filme de Carlitos!”.

Talvez para Kevin seu personagem de Charles Chaplin fosse o clube do coração. Ir ao jogo de seu time estancava as lágrimas do viver. Quando menino, pra mim ir à Vila Belmiro ver o Santos era isso, uma alegria inefável. Era como se meu pai , ao anúnciar que iriamos ao estádio, me consolasse, fosse qualquer um o motivo do meu desconsolo. Possivelmente nem havia, pois tive uma infância próspera, ao contrário do que ocorre com parcela enorme da população boliviana, a mais discriminada dessa América do Sul, com suas veias abertas desde sempre, meu caro Galeano! Imigrantes bolivianos que são tratados em regime análogo à escravidão em fábricas de marcas no interior brasileiro e são mantidos com subempregos em Buenos Aires, olhados como subraça. Na torcida do Boca, são os indígenas, os torcedores do povo. E dentro do próprio país sempre tiveram a honra usurpada pela elite econômica branca e colonizadora. Agora tem um presidente que é a sua cara, que é de certa forma a cara dessa gente dos trópicos, é a cara do volante Paulinho, estampada no LANCE! no dia do jogo em sobreposição à do presidente Evo Morales, ele mesmo um descendente de indígenas.

O Corinthians é o time do povo. Irônico que do time do povo tenha partido a antirrosa dos estádios, a rosa com cirrose que vitimou um garoto boliviano, para parodiar outro poeta, Vinicius de Moraes. Essa tristeza é que não tem fim. A tristeza dos seus pais, de perderem o filho, morte que leva corações a reboque, impotentes diante do fim.

– Vamos, Kevin, não chores. Hote tem jogo do San Jose!

Pois agora quem chora é a família inconsolável. Lágrimas infinitas. Os gritos de “assesinos! Assesinos!” que emanaram das arquibancadas para os joagdores do Corinthians devem ter calado fundo em alguns deles. Os olhos marejados de Tite na coletiva são o retrato de que os “sinos dobraram” por ele também. Como escreveu o poeta inglês Jonh Donne, a respeito das atrocidades da guerra, quando um morre morremos todos nós, porque nenhum ser humano é uma ilha. Qual o valor de uma vida? Meu caro Criolo: Existe amor nos estádios? Diante de um epísódio tão doloroso fica difícil acreditar. Se cada é uma estrela e uma se apaga assim, numa noite assim, á toa, por um gesto torpe, o que devemos pensar? Ao sair de casa para ver seu time, o jovem Kevin entrou no corredor da morte. Nem desconfiava que seu coração palpitava não pela emoção de curtir seu time, mas pela proximidade da guilhotina, que apaga todo o sentido. No fundo, são palavras e mais palavras ao vento, pois Kevin não existe mais. Kevin virou poeira. Poeira que o vento sopra e desfaz o velho dito inglês: “O futebol não é uma questão de vida ou morte. Está bem abaixo disso”.



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