Neymar da Silva, a Joia, precisa inspirar-se em Leônidas da Silva, o Diamante



neymar - leonidasSão poucos, mas férteis, os anos da carreira de Neymar até agora. Não só férteis em títulos, mas em lindos gols, em obras-primas, ou capolavoros, como rascunha a bela lingua italiana. Ganhou ano retrasado um prêmio da Fifa batizado com nome de gênio, Ferenc Puskás, por golaço em jogo contra o Flamengo, e ano passado concorreu ao bi por jogada primorosa contra o Internacional. E houve mais outra dezena de tramas habilidosas, que uniram rapidez de raciocínio, velocidade, técnica apurada, cabeça erguida, visão anterior e tudo mais. Coleção para ‘emplacar em que pinacoteca, nêga?’, como pergunta a brasileiríssima canção ‘Futebol’, de Chico Buarque. Quem sabe um dia a orla de Santos não ganha uma Pinacoteca Neymar, como já há a Pinacoteca Benedito Calixto, em homenagem ao célebre pintor nascido na Baixada Santista. Neymar, como Calixto, capricha nas pinceladas. A diferença é que usa os pés em vez das mãos. Grandes jogadores são como clássicos pintores, músicos, prosadores… São criadores, artistas que extraem do viver o lúdico, o eterno. Longa é a arte, breve é a vida. O que os craques produzem em campo ficarão por anos a fio, sua fecundidade rende imagens para as outras gerações. Matisse, Portinari, Beethoven, Richard Wagner, Shakespeare, Flaubert, Machado de Assis, Drummond, Pelé, Zidane… À sua moda, todos formam o mesmo panteão. Mesmo que academicistas torçam o nariz e insistam em não ver arte no jogo de bola. Danem-se eles e suas ideias quadradas. Neymar certamente é candidato a, um dia, se assim o mestre Chico quiser, entrar em emenda no final da música: Para Didi, para Pelé, para Pagão, para Neymar e Canhoteiro. Por que não?

Sabedor de que a estética é sua irmã de fé, irmã camarada (valeu, Robertão!), o garoto artista da bola, que adentra agora na fase adulta, aos 21 anos, tem um sonho: fazer um gol de bicicleta. Gol que já foi marcado por inúmeros jogadores que não tem metade da sua categoria. Daí ser sinal de modéstia, ou então de inconformismo, o fato de nosso mais novo talento ter deslumbre pelo malabarismo em “duas rodas”. No treino deste sábado, o repórter do LANCE!Net Márcio Porto testemunhou uma bicicleta do camisa 11 que quase virou gol e ganhou aplausos dos companheiros. Ele está tentando, unindo a transpiração à inspiração, para chegar lá. Já executou o movimento de várias maneiras. Quem sabe não dá uma em estilo peculiar e a batiza, tal aqueles que os ginastas criam. Ele, como engenhoso jogador, mereceria ter uma jogada carimbada.

Mas já que a obsessão de Neymar da Silva é um gol de bicicleta ele bem poderia acender umas velas para o pai da jogada, ao menos o pai oficial, com sobrenome idêntico ao seu: Leônidas da Silva! Craque brasileiro da primeira metade do século XX, Leônidas protagoniza célebre foto executando a plástica aérea, com as pernas roçando no céu e o tronco descaindo, é das mais conhecidas. Vestia a camisa do São Paulo em jogo contra o Juventus no Pacaembu no ano de 1948 e reinava como o maioral dos campos brasileiros (a imagem é reproduzida no topo deste post ao lado de uma de Neymar). Dizem até que se houvesse mídia como hoje estaria no primeiro time na galeria dos imortais da pelota (injustiça a comparação dos tempos entre outras coisas por essa escassez de imagens). Se Lêonidas foi um dos nosso primeiros fenômenos, um diamante – daí veio o chocolate Diamante Negro – e Neymar o nosso mais recente, apelidado de Joia, nada mais natural que o santista busque inspiração lá atrás. Joias de diamante brilham incessantes. Neymar parece ser, como Leônidas, de borracha. Sua elasticidade parece levá-lo para espaços diante de marcadores que são, ao natural, individuos duros, sem flexibilidade.

Acender velas pra Leônidas pode auxiliar Neymar. Os sopros do além, do espaço celestial onde residem os craques no plano imaterial, podem ser de grande valia. Lá reside o húngaro Puskas, cujo nome está grafado no troféu que o craque santista ganhou em 2011. E caso façam caretas dizendo que Leônidas não ganhou Copa do Mundo – ah, os idiotas da objetividade, tio Nelson – fatalmente foi porque no seu auge, nos anos 40, as duas guerras mundiais, cânceres da humanidade, impediram a alegria do futebol. E ainda assim, o atacante foi artilheiro do Mundial de 38 com oito gols e, contam, fez um descalço, após perder a chuteira, contra a Polônia. Naquele torneio o Brasil fez sua melhor exibição até então ficando em terceiro e Leônidas não atuou a semifinal contra a Itália por estar machucado. Como bem sabemos, a história sempre pode ser reescrita com os fatos que perderam direção por ausências.



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