Glória feita da falangeta de Cássio



Fosse eu da equipe de marketing do Corinthians e providenciaria imediatamente réplicas da falangeta de Cássio. Sim, a falangeta, essa última senhorita de cada um dos dedos das mãos, o ossículo terminal das garras humanas, que abriga a unha e complementa a anatomia do polegar até o mindinho. Abrigada em um pequeno cubo de plástico, o fragmento anatômico do goleiro seria reverenciado como uma camisa de Basílio de 77, a chuteira tamanho intantil de Marcelinho Carioca ou o quadro do saudoso Doutor Sócrates com o braço erguido. Com esse naco anatômico o falso desengonçado guarda-metas foi o herói de dupla internacional conquista. Contra o Vasco, nas quartas de final da Libertadores, foi ela que impediu o gol de Diego Souza e deu sobrevida ao alvinegro. No lance mais demorado do futebol recente, em que o meia rival correu jardas no deserto, com o mundo à sua disposição, foi a pequena estrutura, esticada na rápida reação do goleiro, que impediu mais um ano de piadas.

Gigante física e metaforicamente, Cássio fez outras defesas importantes desde sua estreia na Libertadores contra o equatoriano Emelec. Ali, em Guaiaquil, tomou de assalto a vaga do corintianíssimo Julio Cesar para não mais largar (com falange e falanginha juntando-se à falangeta nessa missão). Meio semestre depois, no jogo mais esperado, mais desejado, ele voltou a recorrer à nobre e minúscula estrutura corporal. Deu-se num chute do nigeriano Moses, do Chelsea, ainda no primeiro tempo. Um arremate cruzado, elegante, que tinha endereço certo. Mas havia uma falangeta no meio do caminho. No meio do caminho havia uma falangeta. Não é banhada à ouro, mas deveria. Cirúrgica, incisiva, objetiva, decisiva! Foi a defesa emblemática da finalíssima. Na esteira dela outras vieram porém incomparáveis no grau de dificuldade.

Cássio, enorme, inibe os rivais. Sua compleição e envergadura reduzem o gol a caixote. Mas, ironia das ironias, a ponta do osso revestido de músculo e pele, pequeno fragmento, foi sua arma letal. Clonar sua falangeta, ou mesmo reproduzi-la em camurça ou feltro, seria um presentão de Natal para os fieis, ou de aniversário, talvez. No fundo, o futebol é isso, um detalhe, uma falangeta. E ela que separa vitoriosos de derrotados. Herois e vilões. Choros de alegria e de tristeza. Cassio soube fazer uso dessa miudeza. E se falange era uma formação de combate na Grécia Antiga, a falangeta de Cassio foi um osso combativo, determinante, que colocou o Corinthians no topo do mundo.



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