Derrota na Copa de 50: Maracanã vem abaixo em tragédia ‘pior’ que Canudos



A perda da Copa do Mundo de 1950 deixou sequelas na alma brasileira. É verdade que o título de 58 daria uma espanada no Complexo de Vira-latas, definição de Nelson Rodrigues. Mas o próprio dramaturgo diria que a derrota para o Uruguai naquele dia 16 de julho de oito anos antes, em uma Maracanã que estalava de novo, seria uma “tragédia pior que a de Canudos”. O divertido exagero, típico de um dos nossos titãs da escrita, é um registro temporal dessas feridas. De lá para cá, cinco títulos mundiais foram conquistados pelo escrete canarinho, mas aquela data não se apagou jamais. Muita gente aposta na Copa de 2014, a primeira em solo tupiniquim desde então, como a redenção.

Aproveito a promximidade do Mundial então para trazer à baila essas cicatrizes. Se elas fecharão daqui dois anos, num Maracanã curiosamente remodelando, estalando de novo como em 50, não dá para prever. A Seleção está sendo renovada e há equipes tarimbadas, experientes, como Alemanha e Espanha, além de Messi, por supuesto. A questão é que ao menos até 13 de julho de 2014, quando dar-se a final, ouviremos aos borbotões falar-se do desastre de 62 anos atrás. A trajetória brasileira naquele Mundial, narram os livros e confirmam as testemunhas ilustres, foi inflando o ego nacional. A goleada por 6 a 1 sobre a Espanha, já no quadrangular final, era a certeza de que a taça Jules Rimet seria erguida por Augusto, o zagueiro do Vasco que capitaneava a equipe que vestia branco – uniforme seria extinto após o cataclisma. Contra os espanhois, a torcida brasileira, eufórica, cantou a marcha Touradas em Madri, de Alberto Ribeiro e João de Barro, o Braguinha, que fizera um sucesso estrondoso no Carnaval daquele ano. Até hoje, nos bailes mais tradicionais de momo ouvimos a famosa introdução: “Fui às touradas de Madri, pararatimbumbum… Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha.;..”. Abaixo um video precioso com o Trio Irakitan e Grande Otelo cantando a música:

Aquela euforia contagiou a imprensa brasileira e relatos preciosos dão conta de que isso serviu de motivação para os uruguaios na final. Segundo o ótimo livro “O jogo bruto das Copas do Mundo”, do jornalista Teixeira Heizer, Obdúlio Varela, o mítico capitão da celeste, passou a vista pelas inúmeras publicações e, ao detectar o clima de já ganhou estampado nelas, tomou uma medida raivosa. Segue a história, contada nas páginas 73 e 74:

“Ele assustou-se com as manchetes, todas falando das festas que aconteceriam após o jogo. Ficou imaginando que ignoravam ser o jogo disputado por 22 jogadores. Ignorava-se também o adversário. Só se falava em Brasil… Então, de repente, os olhos de Obdulio Varela orientaram-se no sentido de uma folha exposta em lugar privilegiado. Era O Mundo, um jornal de média circulação, dirigido por Geraldo Rocha. Em letras garrafais, a manchete gritava: Estes são os campeões do mundo. Era demais. Obdúlio franziu a testa, contraiu o rosto que já revelava sulcos denunciadores de seus quase 34 anos. Certificou-se do que via. Comprou então os 20 exemplares à venda naquela banca. Correu a outras, próximas, adquirindo 60. Voltou ao seu quarto. Encontrou-se com o esportista uruguaio Manoel Caballero. Tratava-se de figura muito querida no Rio de Janeiro. Operava como cônsul uruguaio. Caballero também trazia uma pilha de exemplares de O Mundo. Entregou-a a Obdúlio, agora como munição em dobro. O capitão da Celeste, pacientemente, recortou as páginas que mostravam a foto da equipe brasileira e que antecipava o Brasil como campeão. Era uma humilhação para a Celeste Olímpica. Juntou-as e espalhou-as pelos banheiros dos andares que serviam aos jogadores. Sem ser visto, foi ao quadro de avisos do salão de entrada do hotel e furtou um giz escolar. Escreveu nos lavatórios:
“Pisen e orinen en el diario”. Foi obedecido. Todos mijaram nos jornais.”

Na década de 50, a televisão começava ainda chegar ao Brasil, era algo seminal. Não havia transmissão dos jogos. A Copa foi acompanhada ou in loco, no estádio, ou pelas ondas da Rádio Nacional. Dizem que havia mais de 200 mil pessoas no Maracanã na fatídica decisão. E outras milhares estavam com os ouvidos colados nos aparelhos radiofônicos com suas antenas erguidas. Um deles era o garoto Chico Buarque de Hollanda, de apenas seis anos de idade e ainda distante de tornar-se um dos maiores compositores de nossa música, que teve uma percepção assustadora assim que Friaça abriu o placar. Na narração, Antonio Cordeiro afirmava que “quase veio abaixo o Maracanã”. Chico pensou que o gigante de concreto estava ruindo de fato, segundo testemunho seu em especial de anos atrás chamado “Futebol”.

No vídeo seguinte você ouve trechos do início entusiástico e fim melancólico da narração:

A virada uruguaia, com o célebre gol de Gighia, fez o goleiro Barbosa ser crucificado. Em uma entrevista, 44 anos depois daquela catástrofe, o jogador multicampeão carioca pelo Vasco desabafaria: “No Brasil, a pena máxima por um crime é de 30 anos. Eu pago há 44 anos por um crime que năo cometi”. E lembrar que ele terminaria a vida precisando de ajuda para não morrer de fome.. Não apenas ele lamentava o lance fatal, como muiots brasileiros que viveram a situação devem ter se torturado com a ideia de que a bola podia ter batido na trave, ido para fora ou nem chegado até lá. Um mero detalhe que mudaria nosso destino. O poder interferir na trajetória da bola, que seria a redenção, foi exercido magicamente em um curta-metragem baseado no livro “Anatomia de uma derrota”, do já falecido jornalista Paulo Perdigão. No filmete, dirigido por Jorge Furtado, Antonio Fagundes interpreta um homem que esteve no Maracanã entristecido pela derrota e consegue voltar no tempo para tentar consertar os caminhos da história. Ao lado do garoto que fora, busca retroagir, orientando Barbosa e buscando evitar que a bola letal estufe a rede brasileira. Uma utopia diante da amarga distopia. Um belo resumo do dano que aquela derrota, que Nelson Rodrigues pintou como mais grave que o morticínio do Arraial de Canudos e seus líder Antonio Conselheiro, rabiscou na alma nacional.

Abaixo a íntegra do curta-metragem:

Em aquecimento para o Mundial de 2014, ainda sobre o tema, recomendo a leitura de “Dossiê 50”, de Geneton Moraes Neto. Nele, o jornalista traz entrevista que fez com os 11 titulares do jogo contra o Uruguai e o técnico Flavio Costa. Nele, os depoimentos são pungentes. Um, marcante, é o de Friaça, autor do gol brasileiro, que a certa altura diz:

“Eu só tinha um pensamento : fiz o gol ! A única coisa que eu vi foi César de Alencar me abraçando. Caímos dentro da área.Passei uns trinta minutos fora de mim. Eu não acreditava: nós tínhamos craques como Zizinho,Ademir e Jair.Mas eu é que tinha feito o gol!”

Friaça ficou 30 minutos fora de si. Os brasileiros estão há mais de seis décadas sem entender aquela tarde de 16 de julho de 1950.



  • flavio

    TOMARA QUE PERCA NOVAMENTE E PARA A ARGENTINA. PIOR FUTEBOL DO MUNDO. GANHADOR DE VÁRIAS COPAS ROUBADAS. ESSE FUTEBOLZINHO BRASILEIRO NÃO ENGANA NINGUÉM. TODOS NÓS SABEMOS PORQUE SEMPRE A SELEÇÃO FICA NAS MÃOS DOS MESMOS. É PORQUE ESTES JÁ SABEM COMO FUNCIONAM OS ESQUEMAS QUE SEMPRE FAVORECERAM A SELEÇÃO BRASILEIRA EM COPAS DO MUNDO E COMO PARTÍCIPES ELES NUNCA IRÃO DENUNCIAR. RIDÍCULOS ESSES CANALHAS!!

  • AMERICO VALONE

    UMA OBSERVAÇÁO, NÁO FOI 16DE JUNHO, E SIM 16 DE JULHO. AGORA VAI SER 13 DE JULHO. CUIDADO ESSE MES É FATAL PARA O BRASIL JA ACONTECEU MUITA ELIMINAÇÁO NESSE MES.
    UM ABRAÇO. BOA NOITE.

  • Nilton

    Fantástico Valdomiro Neto. Parabéns pelo post. E pelos vídeos também. não tinha nascido naquela época, mas lendo o seu post, deu para entender um pouco do que representou aquela derrota. Tomara que o próximo “Maracanazzo” tenha final feliz para nós brasileiros.

  • Marco

    Erro, 16 de julho foi a data da final.

  • Tem razão, Marco. Consertei lá. Obrigado pelo alerta. Abraços

  • Thaiz with Z

    Excelente o texto.. para quem não vivenciou o tal “desastre” chega a ser didático. Meu desejo é que isso acontece outra vez e, se possível, contra a Argentina.

    Naquele dia contra a Espanha, meu lindo bisavô foi ao Maraca ver seu país natal jogar contra o país que o acolheu, carregando 2 bandeirinhas, mostrando seu amor pelos 2.. mas esse povo é tão civilizado, que não só arrancaram e quebraram a bandeira espanhola como lhe deram um soco. Desde que soube dessa história, torço contra qualquer seleção brasileira

  • carlos

    esse tal de flavio de ser um sujeito muito frustado, vive no pais penta campeao do mundo e vc tem de engolir isso, babacao, ou mude-se pra argentina oue spanha da vida, os maiores jodadores da historia, no futebol quem manda é o brasil, a europa criou esse esporte e nós o dominamos, e vc que é brasileiro, ou algum gringo enrustido, tem mais é que engolir mesmo…

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