Nacionalismos da antiga Iugoslávia ainda refletem no futebol atual



A antiga Iuguslávia era um caldeirão étnico até seu desmembramento, fruto de sucessivas guerras fratricidas, nos anos 90. O tema sempre me interessou à beça pelo fato de uma região tão pequena reunir culturas tão díspares. Lembro-me que na época da faculdade de jornalismo um livro ocupou minha cabeceira durante muito tempo: Choque de civilizações. Nele, um cientista político chamado Samuel Huntington expunha sua tese de que as afinidades culturais e religiosas seriam o fundamento do mundo pós-Guerra Fria, com as ideologias colocadas de lado após a “derrota do comunismo”. A ideia, que antes havia sido defendida pelo estudioso na Foreign Affaires, era uma resposta a outro americano, Francis Fukuyama, que falava no fim da história. Enfim, não vou me estender muito no debate, apenas o cito para reforçar o quanto a temática me interessa há bastante tempo.

O choque étnico da ex-Iuguslávia, que gerou as seis repúblicas que hoje conhecemos na área dos balcãs, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro, Eslovênia e Macedônia, e as duas províncias autônomas, Kosovo e Vojvodina, foi um resultado do fim do regime do marechal croata Tito, que conseguiu manter a unidade após a Segunda Guerra Mundial sob o signo da ideologia comunista. sempre teve seus reflexos no futebol. O esporte é um canal para o ódio herdado do período. Nesta semana, a ESPN exibiu um capítulo da ótima série “The Real Football Factories” que trata justamente das rivalidades na região. Em especial entre clubes croatas, entre clubes sérvios e de um lado contra o outro. As dores e rancores dos tempos de guerra permanecem. Em dos trechos mais chocantes do documentário, um membro da torcida do Partizan conta o estupro que um colega cometeu em um torcedor croata após fazê-lo beijar os restos mortais de um torcedor sérvio morto tempos antes.

A violência nua que vimos anos atrás em confrontos entre Partizan e Estrela Vermelha, as duas forças de Belgrado, são ilustradas por cenas de rivais sendo chutados impiedosamente na cabeça mesmo deitados no gramado, entregues à sorte alheia. E lembram relatos que ouvimos dos anos dos conflitos entre as repúblicas. A série me fez lembrar de vários filmes e livros que vi e li sobre o barril de pólvora balcânico. São muito comuns relatos de antigos amigos, que eram de países diferentes, que transmutaram-se em inimigos por força da divisão. Um deles, dirigido por Emir Kusturica, bósnio de Sarajevo que talvez seja o mais famoso cineasta daquelas plagas – uma dica: é o diretor do excepcional “Maradona por Kusturica”, um documentário originalíssimo sobre o Pibe de Oro que volta e meia passa na TV a cabo -, faz metáforas que colocam os povos balcânicos como um bando de animais. O filme, intitulado “Underground, mentiras de guerra”, é recheado de humor negro ao retratar a Iuguslávia desde a Segunda Guerra Mundial até o esfacelamento do fim do século XX. É um longa que soa exagerado pela musicalidade e ações dos personagens, mas tem um espírito crítica danado. Abaixo você pode assistir a um trecho do filme, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes:

http://youtu.be/lbFc_4sTDGE

O outro filme é “Terra de ninguém”, uma produção de múltiplos países, entre eles Bósnia e Eslovênia, que levou o Oscar de filme estrangeiro de 2002. Nele, dois soldados, um sérvio e outro bósnio, se veem encurralados e, em meio ao ódio recíproco e a desconfiança mútua, são obrigados a conviver, pois estão entricheirados. A história retrata a imbecilidade de uma guerra e a incompetência das forças externas para lidar com a situação de povos vizinhos que vivem às turras.

A carnificina foi uma marca do período de batalhas na área. Recentemente vimos a condenação de Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra de Radovan Karadzik, alcunhado simplesmente de “açougueiro dos balcãs”. Daí se pode ter uma dimensão da sanguinolência. Um outro filme, cujo nome não me lembro agora, começa mostrando amigos de países eslavos distintos jogando basquete e, tempos depois, se matando, quando a guerra eclodio. A complexidade é grande e o esporte não passou em branco.

Conexão esportiva

No ano passado, uma partida entre Itália e Sérvia, em Gênova, pelas Eliminatórias da Eurocopa teve que ser interrompida após confusão com torcedores sérvios. Descobriu-se depois que a ação foi provocada por nacionalistas que costumam agir em jogos locais e que têm raizes com os confrontos que marcaram a antiga Iugoslávia. O episódio remeteu ao livro “Como o futebol explica o mundo”, do jornalista Franklin Foer. Há nele um capítulo dedicado exclusivamente à ação desses fanáticos na península balcânica. Ele conta a história de um jogo entre os croatas separatistas reunidos na torcida do Dínamo Zagreb (capital da Croácia) e do Estrela Vermelha, da Sérvia. Para que um massacre não ocorresse, a polícia local retirou grupos de sérvios de helicóptero. Há no livro entrevistas que revelam as vísceras do embate com membros das torcidas. E cita o terrorista Arkan, que também é mencionado pelos seguidores extremistas do Estrela Vermelha no documentário exibido pela ESPN, que recrutava os mais violentos para atuar como paramilitares na Guerra da Iugoslávia dos anos 90.

No último fim de semana, a ESPN exibiu o clássico de Belgrado entre Partizan e Estrela Vermelha e pode-se notar o clima de rivalidade que cerca o jogo com as inflamadas torcidas nas arquibancadas. Foi pacífico, sim, mas percebe-se que os nervos estão sempre à flor da pele. Mais que um jogo, é um atrito entre posições que remetem às origens étnicas e pensamentos radicais. A última Copa do Mundo que teve a Iugoslávia unificada foi a de 90. O esporte foi acompanhando a desintegração. Em 98 a Croácia despontou como surpresa e foi terceira colocada do Mundial da França, com Davor Suker como artilheiro. Depois a Sérvia também esteve em uma edição e a Eslovênia em duas. Bósnia e Montenegro têm feito boas campanhas em eliminatórias recentes e fatalmente aparecerão em breve.

Quem quiser saber mais sobre as batalhas que assolaram a região também pode ler o livro “A batalha de Sarajevo”, do jornalista Leão Serva, que trabalhou no LANCE!. Nele, Leão conta sua experiência como correspondente de guerra na região com detalhes do conflito e histórias impressionantes.



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