Minha tristeza pela queda do Palmeiras da vó Tereza e do tio Balu



Eu quase me tornei palmeirense. Foi por um triz. A predominância verde na família, com o sangue italiano dos meus bisavós napolitanos, foi uma pressão natural. As gesticulações, a cozinha da minha avó Panariello, a tarantela na boca da minha tia, com o funiculi funicula do dialeto em som presente, tudo conspirava. O “catzo” nas broncas da minha mãe ou o “cáspita” quando não entendi algo eram despojo da origem. Conta minha mãe até hoje a história do bolo de periquito jogado fora pelo meu bisavô, em ato de fúria pelo desempenho do seu “Parmera”, da sua amada colônia, fugida da pátria-mãe durante a guerra. O Verdão perdeu um campeonato, não sei precisar qual, nem minha mãe, e o bolo feito para a festa, com o desenho do então principal símbolo do Palestra, foi parar num canal de Santos. Virou doce na boca de pardais. Não me tornei palmeirense por um fio. O entorno conclamava, mas a influência do meu avô paterno, que tem o mesmo nome que eu e me contava as histórias do Santos, vivera os tempos de Pelé e era um companheiro de estádio ao lado do meu pai, foi o fiel da balança. No caminho ainda quase virei a casaca diante da penúria santista. Porém, parece que o coração do torcedor tem filamentos de teima. Não tem jeito, é além das conquistas. E ele já estava tingido com o branco da paz e o negro da nobreza, nas distinções da fundação do clube.

Essa ameaça constante fez eu ter um carinho pelo clube da Turiassu. Um carinho natural. Meu querido tio Caetano, que um dia, quando garoto, me emprestou fita com gols de Copa do Mundo para eu copiar, era palmeirense de quatro costados. E chegou a jogar futebol no Jabaquara, lá da minha terra. Nunca me esqueço dele me sacaneando, em um campeonato dos anos 90, quando o Porco reinava: “quem é o lí-ai-der?”, em uma novilingua que ele adorava criar. Meus primos de segundo grau, entre eles meu afilhado Bruno, herdaram o amor pelo Verdão. Fui o apóstata. O Santos falou mais alto no meu peito. E ao Palmeiras resguardei no coração um carinho real. O mesmo que tenho por todas essas pessoas, além dos grandes amigos adeptos da academia. A adoração pela Itália, pelo idioma que se fala na península, também me deixaram com um pezinho de afeto por lá. Claro, time do coração é time do coração, temos em verdade um só. Mas sinceridade intelectual é importante no mais das vezes. Não escapamos a admirações. E eu sempre admirei o Palmeiras e os palmeirenses. Como sempre admirei os italianos, sua gastronomia, música, cultura, história…

Ao ver a capa de hoje do LANCE! senti um pouco da dor palmeirense. Não uma dor demagógica, mas espontânea, essencial, psicanalítica. A dor da família, imersa no sangue napolitano. Não vi no rebaixamento do Palmeiras a queda satisfatória de um rival. Vi como um tombo na minha alma infantil, que ficou lá atrás, nos domingos de família. É como se um pedaço meu se sublevasse e dissesse: “Não esqueça teus ancestrais, catzo!”. Até me deu vontade de correr para uma cantina do velho Bixiga e ouvir o acórdeon chorar Santa Lucia lontana. Ou colocar para tocar “Vá pensiero, sull’ali dorate”, do Nabuco, do Verdi, convocado a nação italiana unificada. Talvez o Sole Mio, real hino da bota, entoado por Pavarotti. Juntou tudo e me fez buscar o cordão ummbilical, que deve ter uns traços de pigmentação verde. Eu, herege alvinegro, deixei o DNA de lado mas não posso me furtar à solidariedade com os meus.

Espero sinceramente que o Palmeiras volte para o seu real lugar!

Este texto é também uma homenagem póstuma à minha querida avó Tereza, que assistia jogos de futebol ao meu lado, e a meu tio Caetano, seu filho, que era leitor do LANCE! Saudades eternas!



  • Aline Toschi

    belo texto, emocionante, mais um que faz minha segunda feira melhor 🙂

  • Gisele

    Adorei o texto, muito emocionante…que voce continue sempre escrevendo atraves do coracao!!!

  • rogeriocavalo

    Amigo creio que para um corintiano(por escolha da profição jornalista) você entendeu né!
    Estas palavras não me soam deboche como você pretende e sim dor , seja digno (como jornalista) e escreva claramente (como lhe mandam , coitado)!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • gJANUZZI

    Neto.. prego por esso texto. sou alvinegro das geraes, e sao poucas as vezes que o futebol retoma sua historia. a copa no Brasil, a queda dos grandes. Honremos nossa furtiva constituiçao: DNA HUMANO. VIVA A ARTE. a serie b e a serie se tornaram um negocio so! VIVALDI
    salut desde das montanhas e continue brilhando sua letra!
    GJS

  • Wagner

    Realmente, nessas horas o laço familair pesa, parabéns pelo texto.

  • Nilton

    Parabéns Valdomiro. Temos histórias parecidas. No meu caso, Corinthiano que cresceu em meio a uma família inteira de são paulinos. Apenas meu tio e mentor, e eu. Acredito que este sentimento é sim verdadeiro. Eu mesmo deveria estar comemorando a queda de meu maior rival. Deveria, mas não estou. Tenho grandes amigos palmeirenses e nesta hora respeito a dor que é daquelas que dilaceram o coração. Então que o palmeiras aprenda finalmente com os erros e se organize para voltar a ser o grande rival de anos atrás. Novamente, parabéns pelo texto Valdomiro.

  • Andre

    Rapaz, a sua historia se mistura com a minha …. de sobrenome Bacci, com meu Avo nascido em Jau … Meus tios, tias, todos palestrinos, porém .. mamãe casou-se com um Corinthiano, sendo assim , eu e consequentemente meu filho destoamos deste sangue alvi-verde, Palestra, como dizia meu avo , ouvindo Fiore Gigliotti em seu radio a valvulas , eu em seu colo, ele tentando me convencer a me tornar palestrino, acho que fui sua maior decepção futebolistica …. Porém , meu amor pelos meus tios palmerenses é tão forte, que ja fiz a proeza, de tirar uma foto, ao lado do Admir da Guia para dar-lhes de presente , tios que tanto amo.

  • valter

    rapazinho de sorte kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • Batista

    Muito emocionante eu texto, mas no fim, continuo rindo! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!

  • Waldomiro, tô morrendo de inveja de seu texto! E olha que sou redator publicitário de algum talento (meus amigos é que afirmam isso e, não, eu!) e, hoje na aposentadoria, ainda perpetro alguns textos sobre enogastronomia num jornal de Conchas, no interior paulista, minha terra natal.
    Seu texto tocou fundo em minha alma alviverde! Parabéns!

  • Carlitos

    A Grande Ironia…

    Quatro vezes Campeão do Brasileirão, dois Roberto Gomes Pedrosa, duas Taças Brasil… Campeão da Libertadores … Vulgo Campeão do Século Passado… vejam bem todas estas glórias são do Século Passado! Pois neste Século o Palmeiras conseguiu apenas Três títulos… O da Série B do Brasileirão após a primeira queda, um Paulista em 2008 e a fantasiosa Copa do Brasil deste ano de 2012, o mesmo ano em que Caiu novamente em apenas 12 anos deste Século! Culpados? Todos, desde a maior patente ao mais humilde torcedor.

    A Diretoria é culpada por não conseguir afastar a oposição de suas administrações… A oposição é culpada por não deixar a situação trabalhar em paz, e num momento como este em que o Clube mais precisava de união, os Cardeais do Palmeiras só conseguem enxergar os próprios Umbigos! Umbigos estes decorados com cordões de alimentação à torcida organizada usada sempre como massa de manobra política… e que em momentos cruciais fazem o Time perder mandos de Campo! A Mancha Verde contribuiu com estes procedimentos para uma mancha maior e negra… o Bi Rebaixamento de um Clube com onze títulos em âmbito Nacional, dois rebaixamentos em apenas dez Anos!

    Felipão, Ídolo do Clube por ter conseguido ganhar o título de maior expressão da História Palestrina quando o Palmeiras não era somente Palmeiras e sim tinha o Sobrenome Parmalat, passou o tempo todo falando que o time era fraco, e que precisava de Camarões… Vieram então Daniel ” Tonél de” Carvalho e Wesley”Moribundo”, sem contar que antes disto deixaram K9 jogar o Nome do então presidente na privada e o próprio Técnico apoiá-lo, para depois descartá-lo. Valdívia o “Mago do Chute no Vácuo”, foi realmente mágico desde a sua volta, pois fez sumir seus gols e as suas aparições dentro de campo. E o pior de Tudo isto é que a torcida sempre apoiou estes Três últimos remanescentes: Felipão, Kléber e Valdívia e pra muitos estes eram maiores que até o próprio Palmeiras… tamanha era a idolatria! O Palmeiras hoje é uma poça de Lama onde os funcionários entregam funcionários, onde até Valdívia entrega Felipão o acusando de abandonar o Barco! E sem trocadilho… se não fosse Barcos a Nau Palmeirense seria afundada não com duas rodadas de antecedência e sim seis!

    Ironicamente o Palmeiras… “Octa campeão Brasileiro” se junta ao Grêmio e o Fluminense, também como Bi Rebaixado , ironicamente a mesma torcida que um dia pediu para o time perder pro Flu em 2010, teve que implorar para não ser batido pelo mesmo em 2012! Ironicamente o Palmeiras volta à Libertadores após muito tempo, mas também volta a ser Rebaixado em um curto espaço de Tempo! Ironicamente a “profecia” proferida por um dos maiores Ídolos Palestrino, em que Disse: O Palmeiras só cai pra Segunda divisão Se um um dia o Corinthians ganhar uma Libertadores acabou de se cumprir! Ironicamente o que foi o Grande Palestra da Academia… hoje é o grande Palerma da Anarquia!

    Eu, como grande admirador do futebol, realmente achei triste mais uma queda Palmeiras, principalmente por empobrecer o Futebol Paulista, MAS UM TIME QUE TEM 20 DERROTAS EM 36 PARTIDAS DISPUTADAS, NO MOMENTO NÃO PODE SER CHAMADO DE GRANDE!

    Não sou o dono da verdade mas esta é a minha visão sobre um dos mais tradicionais Clubes do Mundo e que acaba de sucumbir novamente!

  • Philipe

    Sinceramente nunca vi o Palmeiras como um grande adversário, talvez pelo fato de terem poucos palmeirenses na Baixada Santista e, especialmente, em Santos, nossa cidade, Valdomiro.

    Por isso essa queda, vejo com grande naturalidade, sem sentimentos como os seus, mas também ausente do prazer de alguns.

    Inegável é que o fenômeno de encolhimento de torcida, que ocorreu ao Santos nos seus piores e recentes anos, já ocorre com o Palmeiras e a tendência, após esse revés, é que isso aumente.

    Péssima notícia para o Palmeiras que com isso perde torcida e receita e ótima para Santos, São Paulo e Corinthians.

    Parabéns pelo texto, difícil ler textos como esse no jornalismo atual.

  • Wilson

    Texto sensível, emocionante…, e eu que, que também sou Santista (Herança de meu pai), estranhamente, também tenho um carinho especial pelo “Parmera”, talvez porquê, conversar sobre futebol com os amigos Palmeirenses, em qualquer circunstâcia, é sempre muito fácil e agradável. Situação impensável, se relacionada a uma torcida que sabemos qual é, cujo papo em relação à futebol passa de irritante…

  • Missori

    Parabéns, Neto! Texto magnífico de um santista com raízes palestrinas!!!!!!

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