Do tempo em que se jogava botão…



Assim que o futebol entrou de fato na minha vida, o jogo de botão veio a reboque. Eu jogava com amigos e sozinho também. Aliás, sozinho eu criava meus próprios campeonatos, Copas do Mundo, torneios dos mais diversos, com regulamentos que dariam inveja à CBF dos anos 70 e 80 de tão rocambolescos. Era um mundo que eu controlava e no qual a paixão que já nutria pelo esporte permitia dar asas à imaginação, podendo ser um pequeno cartola, um supercraque ou até um criador de novas equipes (um manager). Com o passar de uns cinco, seis anos, eu já colecionava mais de 100 times e, assim, podia construir milhares de situações. E na rua onde morava, eu organizava as competições e cada vez incluia mais gente, juntando a turma de vizinhos com o pessoal do colégio. Um colega costumava colar imagens dos seus super-heróis favoritos, como homem aranha, Batman e os X-Men nos seus botões de plástico, que comprava na banca de jornal. Cada um jogava com o que podia ou preferia, não havia amarras quanto a isso, era democrática a coisa. Um, mais metido a profissional, disputava com aqueles de galalite, e fazia mil rituais antes de mandar um petardo para o gol adversário após a frase “tá lá?” ou “vai pro gol?”. Alguns goleiros eram feitos de caixa de fósforo, com durex e um punhado de sedimentos dentro para dar peso e não cair com os choques. Lembro também que detonei as pecinhas de War, aquele jogo em que você podia ser um imperador superpoderosos e conquistar o mundo, utilizando como bola nos estrelões (lá em Santos, ao menos, era assim que chamávamos a mesa de botão). Só de vez em quando usava bolinha redonda mesmo, dessas de camurça ou feltro que acompanham as caixinhas. Vez por outra, improvisava os jogos na mesa da cozinha ou na da sala de estar da minha mãe, a maior de casa, que eu chamava de Maracanã. Chegava a dar personalidade para cada palco dos jogos, alimentando dessa forma a criação.

Hoje poucas crianças jogam botão. Os tempos são tecnológicos. O computador, com jogos online e infinitas opções de distração, roubaram a atenção da petizada. Dei para meu sobrinho menor uma caixa com alguns times, ele até se interessa, mas logo se cansa e corre pra tela, com mouse e teclado. Quando garoto, eu peguei os primórdios dos videogames, mas eles apenas eram mais uma opção, jamais empanavam o brilho do jogo de botão.

Voltando ao imaginário que cercava essa brincadeira que pode ser séria (há federações e campeonatos de botão, com gente que leva muito a sério a coisa), o compositor Chico Buarque contou no DVD O futebol, de uma coleção lançada na década passada sobre sua obra, que certa vez disputava uma partida contra o humorista Chico Anysio, falecido no início deste ano. O árbitro era o poeta e diplomata Vinícius de Moraes (que trio!). Chico Buarque cantava, em meio às jogadas, o hino do Polytheama, clube de sua fundação. E Vinicius então assobiava a música, para irritação de Chico Anysio. Veja no vídeo abaixo:

http://youtu.be/KZHqhFbdCKk

Curta-metragem

Apesar do saudosismo, da sensação de que o jogo ficou preso no passado, soube recentemente de um curta-metragem que trata justamente do jogo de botão e da febre que segue sendo, ainda, entre adultos. Citei mais acima que há federações e adeptos. Produzido por Felipe D’Andrea, o filme chamado “Vai pro gol” foi exibido na 9ª edição do Amazonas Film Festival (AFF), em Manaus, e aparecerá no 30º Milano International Ficts Feste 2012, entre cinco e nove de dezembro, em Milão, na Itália, e conta com depoimentos do publicitário Washington Olivetto e do cartunista Maurício de Souza. Olivetto, inclusive, cita a relação de Chico Buarque com o botão. A previsão é de que seja veiculado ainda este ano em um canal de TV. Não pude vê-lo ainda, mas o trailler que me mandaram é um aperitivo e tanto. Parece ter justamente esse tom nostálgico que cerca o jogo. Veja o trailler abaixo.



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