O futebol-arte e a rivalidade na música de Chico Buarque de Holanda



Vou me apropriar de frase de Martinho da Vila antes de cantar “Valsinha” em um show comemorativo para dizer que “Chico Buarque de Holanda é um dos meus compositores prediletos”. E nos seus mais de 40 anos de carreira, que se estendem até hoje para nossa felicidade, o futebol teve presença marcante. Em várias entrevistas, em momentos distintos, Chico disse que quando jovem queria ser jogador de futebol (que bom para nós, fãs, que acabou enveredando pelo caminho da música). A nossa “única unanimidade nacional”, nas palavras de Nelson Rodrigues, tem como ídolo o ex-ponta direita Pagão, que fez fama com as camisas de Santos e São Paulo. Em um documentário que faz parte de uma série que chegou a ser veiculada pela TV Bandeirantes, Chico diz que quando jogava imitava os trejeitos do ex-jogador, como as mãos meio moles e os “dribles aéreos”.

Dono do Politheama, time cujo hino – ovbiamente composto por ele – diz cultivar “a fama de não perder”, Chico registrou inúmeras vezes a paixão pelo futebol em versos. Há menções sutis e grandiloquentes, como em Biscate, quando na frenética troca de farpas de um casal o homem ralha com a mulher: “Quieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate”. Ou na recente “Sem você 2” (uma continuação na belíssima canção de Vinícius), incluida na turnê deste ano, o poeta afirma que a ausência da amada o permite até “ver o futebol e ir ao museu, ou não!”. E ainda há “Com açúcar com afeto”, música feita declaradamente para Nara Leão, em que a mulher, desta vez, é quem resmunga à espera do marido: “No caminho da oficina há um bar em cada esquina pra você comemorar, sei lá o quê! Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto discutindo futebol”.

Nessa linha, Tom Jobim também citou o futebol como a velha colcha de retalhos que envolve uma relação amorosa. Isso acontece na belíssima “Falando de amor”. Eis o trecho: “quando passas tão bonita nessa rua banhada de sol. Minha alma segue aflita eu me esqueço até do futebol”. Reparem que em todos os casos citados, tanto nos buarqueanos como no de Tom (o maestro soberano de Chico), temos o futebol como a distração masculina a interferir na relação com namorada ou esposa. Hoje isso se perdeu um pouco com a maior presença feminina em estádios e na rotina da bola. As canções também são um registro do seu tempo.

Chico cita o Maracanã, templo sagrado do nosso futebol, na engajada “Pelas tabelas”, diretamente ligada ao movimento das Diretas Já, no início dos anos 80: “Minha cabeça rolando no Maracanã”. À parte essas e outras múltiplas referências ao ludopédio (na infância Chico denominou assim um jogo que criou e que significa “jogo com os pés”), duas obras do seu cancioneiro tem o futebol como tema principal e é delas que quero falar mais detidamente aqui. E tocam em temas bem distintos e que estão sempre na ordem do dia nos debates em botequins, entre amigos ou na mídia: o futebol-arte e a rivalidade clubística.

A primeira delas chama-se simplesmente “O futebol”, sem rodeios. Nela, explicita a visão artística que tem do jogo e me faz até lembrar do livro do crítico literário e música José Miguel Wisnick, “Veneno-remédio”, que lembra do cineasta Pier Paolo Pasolini falando que nós praticamos futebol poesia e o europeu o futebol prosa. Na letra, Chico faz paralelos com a pintura e a própria música: “para aplicar uma firula exata, que pintor? Para emplacar em que pinacoteca, nega? Pintura mais fundamental que um chute a gol. Com precisão de flecha e folha seca!”. Faz menções ao supracitado Pagão no fim ao musicar a tabela com outros gênios: “Para Didi, para Mané, para Pagão, para Pelé e Canhoteiro”. E é possível até entrever uma certa frustração por não ter sido jogador quando diz, logo no começo: “Para estufar esse filó como eu sonhei, só se eu fosse o rei!”. Abaixo, Chico canta O futebol durante a turnê do CD Carioca, em 2006:

A outra canção, bem mais antiga, pouco tempo depois do nascimento da sua primeira filha, Silvia Buarque, fruto do casamento com a atriz Marieta Severo, chama-se “Ilmo Sr. Ciro Monteiro ou receita para virar casaca de neném”. É baseada em fato real. O compositor Ciro Monteiro, torcedor flamenguista, enviou de presente para a primogênita do amigo uma camisa do Flamengo. Chico, por sua vez, fã do Fluminense, deu a resposta musicada. Primeiro exalta o companheiro com palavras gentis, agradece a camisa e logo adverte que “pano rubro-negro é presente de grego, não de bom irmão”. Com a proverbial capacidade lúdica de brincar com as palavras e inventar frases, Chico vai então desconstruindo a camisa do Flamengo até que ela se transforme em tricolor. Genial! E assim encerra a questão:

“Amei o teu conselho
Amei o teu vermelho
Que é de tanto ardor
Mas quis o verde
Que te quero verde
É bom pra quem vai ter
De ser bom sofredor
Pintei de branco o teu preto
Ficando completo
O jogo da cor
Virei-lhe o listrado do peito
E nasceu desse jeito
Uma outra tricolor”

Abaixo, reprodução da canção, constante do disco Chico Buarque nº4, lançado em 1970.



  • Lucas Araújo

    Chico Buarque, um gênio incomparável da cultura brasileira. Confesso: conheço muito pouco sobre ele, mas não tem como negar e ignorar seu talento acima da média. Ótima coluna, é bom ver que o que é bom, o que é clássico, sempre terá espaço, mesmo que mínimo, perante à essas tralhas musicais que a mídia teima eu colocar pra fins comerciais. Porque talento que é bom…

    Saudações do Tricolor Paulista.

  • Djalma Camargo Neto

    Valdomiro, sou ChicoBuarquista fanático.

    Acrescento a canção “Bom tempo” (1968, presente no discos “Compacto” e “Chico Buarque de Hollanda volume 3”, apresentação na TV Record no mesmo ano, além da execução no Luna Park, show em Buenos Aires, 1984, com Toquinho e o dueto com João Bosco no dvd “40 anos depois”): “vou, vou, satisfeito, alegria batendo no peito, radinho contando direito a vitória do meu tricolor”.

    Luna Park, 1984: http://www.youtube.com/watch?v=XR5WVuLqjec

    Com João Bosco, dvd 40 anos depois: http://www.youtube.com/watch?v=9Zastl7DknI

    Apresentação na record: http://www.youtube.com/watch?v=PWbW4gNZ6CU

    Abraço!

  • Gercilí Barros

    Parabéns Neto! Chico, mesmo não sendo mais Francisco, deveria ser tratado, ouso dizer, obrigatoriamente, sempre, com reverencia. As músicas citadas são pérolas mas tem uma em especial chamada Bom Tempo, gravada em 1978, na qual Ele diz: “Vou que vou satisfeito, alegria batendo no peito, radinho tocando direito a vitória do meu Tricolor”. Saudações Tricolores

  • Gercili, bem lembrado. Essa música é uma parceria com Toquinho e mais uma que tem menção ao rádio, né? Assim como em Biscate, com “quieta que eu quero ouvir Flamengo x River Plate!”. Feliz por encontrar buarqueanos por aqui.

  • Genial. Djalma! Note que no comentário acima também fizeram menção a Bom tempo. Muito bons esses links, obrigado pela contribuição. Lembrei de uma outra que não mencione, com viés de crítica social: Pivete. O menino virá Mané e Pelé, imerso nas mazelas sociais.

    Abraços

  • Obrigado pelo comentário Lucas. A obra do Chico é uma radiografia da nossa pátria. Como ele escreveu: “subtraida em tenebrosas transações”

    Abraços

  • Djalma Camargo Neto

    Grande Valdomiro! Lembrei de um sucesso recente que não só cita futebol como também homenageia Mané Garrincha, Mestre Ziza e o Rei Pelé: a belíssima canção “Barafunda” (2010) – presente no último álbum do Poeta: “Chico” (2011). Aliás, não só recomendo o álbum de estúdio como o dvd “Na Carreira” (2012), turnê feita pelo Brasil com as canções do novo disco – cantando no show, por exemplo, “Anos Dourados”, “Geni e o Zepelin”, “Tereza da Praia”, “A Felicidade”. Vale a pena.

    Em certo trecho, diz: “Foi Garrincha, não, foi de bicicleta, juro que vi aquela bola entrar na gaveta, tiro de meta, foi na guerra, gritou o astronauta que era azul a terra…”

    A seguir, fala: “A vida é bela, é, não é, era Zizinho, era Pelé, aliás, Soraia era Anabela, era amarela a saia… Foi quando a verde-e-rosa saiu campeã, cantando Cartola ao romper da manhã, oh, oh, oh… Salve o dia azul, salve a festa, e salve a floresta, salve a poesia…” (para mim, um dos versos mais lindos da música brasileira, concorda?)

    E arremata: “A vida é bela, é Garrincha, é Cartola e é Mandela.”

    Valdomiro, ainda sobre o recente álbum, não só mostra a “grande forma” em que se encontra o Chico, como supera o até então último álbum “Carioca” (2006), o penúltimo “As Cidades” (1998) e se analisarmos bem, no mínimo empata com o genial “ParaTodos” (1993), no mínimo! Faça um comparativo, quando possível.

    O cd “Chico”, é tranquilamente, um dos maiores da carreira dele, como qualquer um dos tempos do auge – se bem que para mim ele sempre se manteve em forma, mas isso é outra discussão, risos.

    Vide a parceria com João Bosco, “Sinhá” (clássico dos clássicos!), a belíssima “Tipo um Baião” (homenageando Gonzagão), a já citada “Barafunda” e até a “Sem Você nº 2”, outra que cita futebol: “Posso até ver o futebol, ou não…”

    Fora as outras faixas do cd, que também valem muito (até mesmo a polêmica “Querido Diário”, segundo o próprio Chico, a nova “Cotidiano”, composta de última hora para fechar 10 faixas no cd).

    Barafunda: http://www.youtube.com/watch?v=ioq7DaOCU_8

    Sem Você Nº 2: http://www.youtube.com/watch?v=A4fkaP-3chI

    Observação: Barafunda não seria a nova “Pivete” (que além de citar Mané e Pelé, na gravação de 1978 dizia “agora ele se chama ‘Emersão’…” e depois na gravação no programa Ensaio da TV Cultura em 1994, trocava: “Agora ele se chama Ayrton…”, louvando Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna)?

    Grande abraço!

MaisRecentes

Documentário mostra diálogo entre sociedade e futebol francês



Continue Lendo

Documentário mostra diálogo entre sociedade e futebol na França



Continue Lendo

O protagonismo estrangeiro no futebol brasileiro



Continue Lendo