A mão de Barcos suscita infinitos dilemas éticos e morais



O gol de Barcos foi com a mão e bem anulado, pois irregular. O juiz, ao que tudo indica, teve ajuda de recurso eletrônico, a transmissão televisiva do jogo, para anular a irregularidade. E isso é irregular. É irregular anular um gol irregular com recursos eletrônicos. A essência da coisa incomoda quem não quer levar vantagem em tudo, quem acha que a burla é um acinte aos anos de desenvolvimento moral e ético do ser humano. O pensamento puro, essencial, é que a verdade prevaleça. E no caso, prevaleceu. O tapa nem um pouco sutil de Barcos na bola foi invalidado e, assim, não tivemos um jogo de futebol decidido com jogada de voleibol. Mas o puritanismo, neste caso o legal, não necessariamente moral, nos obriga a concluir que se provada a utilização do recurso eletrônico e nada acontecer as regras estarão desmoralizadas. Aqui não vale esqrimir a lógica clássica brasileira de leis que pegam ou não, senão estaremos enterrando o debate.

Caso Internacional x Palmeiras façam um novo jogo estaremos dando dois recados claros, um atenderá a essa pureza de pensamento e outro a espancará. Provado o proibido uso das imagens estará dito que somos intransigentes com infrações à legislação esportiva. Por outro, mesmo que indiretamente, premiaremos a malandragem, a esperteza do gol de mão. No fim, ele terá compensado, já que o Palmeiras ganhará um jogo inteiro para buscar três pontos que podem salvá-lo de um doloroso rebaixamento. Óbvio que Barcos fez aquilo num átimo, ato talvez impensado, e que não foi tão premeditado assim. Nem teria como. Mas o fato é que temos diante de nós um dilema que mistura a moralidade na sua forma bruta e também na forma legal.

Há um outro problema ético nesse cenário todo e se refere à doutrina da sobrevivência acima de tudo. Tema antigo esse, desde os tempos da caverna e que resiste apesar das tantas décadas de presumida civilidade. Como mostrou matéria de Marcelo Damato nos veículos LANCE!, árbitros brasileiros têm armado esquemas para contarem com a ajuda eletrônica em lances capitais. Fazem isso porque sabem que em segundos a verdade está escancarada em lares e bares e que ele está, em pouco tempo, jogado aos leões. Então, assim, recorrem ao irregular, o que é sujo, para fazer o correto, o que é nobre. Sentem-se oprimidos os homens de preto, que no Brasil nem profissionalizados são, pela opinião público-boleira implacável e pelas severas penas da Comissão de Arbitragem. Sabem que falhas dessa ordem os deixará na geladeira, com menos dinheiro no bolso e carreira maculada. É a justiça a qualquer preço para salvaguarda pessoal. A emenda sai pior que o soneto ao momento em que o juiz é omisso na súmula e diz não ter havido nenhuma normalidade. O fato simples, exposto do Oiapoque ao Chuí, de que o jogo foi paralisado e um gol validado foi, após longo debate, invalidado, já é anormal. Ao pronunciar-se dessa forma, o árbitro Francisco Carlos Nascimento dá elementos robustos para desconfiarmos de tudo que ocorreu.

Essa salada de moralidades corrompidas só prova que o futebol é um terreno em que o oportunismo prevalece. Raramente vemos pontos de vista que fogem do “cada um defende o seu”. Isso dificulta o debate, o emburrece, e a prevalência das paixões nos impede de avançar. Daí gerar admiração declaração do ex-goleiro Marcos, que hoje ainda trabalha no Palmeiras, contrário à anulação do jogo: “Não precisamos que anule o jogo, afinal o gol foi de mão. Numa época de tanta luta para que a justiça seja feita no Brasil, nós (todos) do futebol brasileiro temos que dar exemplo”, disse o ex-camisa 1.

Recentemente o Superior Tribunal de Justiça anulou as provas da Operação Castelo de Areia, da Policia Federal, considerando as provas colhidas de forma ilegal. A operação mostrava ilegalidades, como lavagem de dinheiro, cometida por construtoras e políticos. Não vou me aventurar em méritos jurídicos, não é minha área, mas é incômodo saber que podemos ter verdades à mão que são ignoradas por conta de origem. Porém, pensar que os fins justificam os meios também não é um bom caminho para perseguirmos o real estado de direito. Comparar uma questão de estado com futebol soa herético, mas serve apenas para mostrar como esses dilemas éticos estão em balaios parecidos.



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