Tem mais samba entre 1 e 99% de chances no futebol



Aviso que este não é um libelo contra os números, apenas uma visão além deles. Um olhar para a alma, não somente para a carcaça. Do contrário, iremos todos transformar o suor dos gramados em fraque e cartola sem graça. Seria estúpido tratar os números com desdém. Esses meninos inventados por civilizações antigas a quem muito devermos têm funções nobres. Eles permitem saber se a mulher que paqueramos está na vida adulta e se nossos times têm mais troféus que os rivais. Podemos com eles apostar engradados de cerveja com amigos, bastando que cada um aponte um placar. Quem acerta, bebe! Quem erra, paga! Ainda assim, vira e mexe o futebol faz caretas pras projeções, vestidas de porcentagens, insistindo em contrariá-las.

Toda rodada do Brasileirão lemos e ouvimos sobre as chances de título, Libertadores e rebaixamento dos clubes. Ah, fulano tem 65% de chances de cair, beltrano 32% e sicrano 3%. E aí, sicrano respira aliviado, beltrano preocupa-se, pero no mucho, e fulano rói as unhas. Até que sicrano cai junto com beltrano e fulano tira ouro do nariz (aqui, uma apropriação da bela figura de poema de Drummond. E então as projeções não resistiram ao mundo realmente irreal, teatral, sobrenatural do jogo de bola. Porque é isso, o futebol é metafísico, produz milagres com reuniões de santos a atuar sarcasticamente, na cara dos cartesianos de plantão. Claro, dirá o arguto leitor e a sapiente leitora, são projeções, não futurismos. Eureka! Só que o imponderável é tão protagonista no mundo da bola que os comentatistas, analistas e pítaquistas já estão escolados, ou deveriam, na ideia de que 98% nos relvados podem ser, depois, um rotundo nada.

Não quero, por favor, deixar o emprego dos matemáticos do ludopédio em perigo. São sujeitos que estimo. Mas adiro à herética função de exaltar as estripulias do jogo. O gol de Leonardo Silva quando o relógio agonizava fez nove pontos viraram seis na distância de Fluminense e Atlético-MG e 94% descerem quatro degraus. A frieza desses números pouco diz de quão quente foi o jogo no Independência. Na frente há a lógica precisa e atrás a ilógica do futebol. Essa ilógica permitiu que o mesmo Fluminense escapasse do rebaixamento em 2009 quando a matemática já afiava a guilhotina. E também viu o São Paulo levantar o troféu um ano antes quando, no início do segundo turno, os números censuravam qualquer pretensão tricolor.

Fico imaginando como seriam os torcedores se largassem a magia da bola pela exatidão dos números. Então consultaria as tábuas projetivas para decidir se iriam ver um jogo ou não. Dependendo das porcentagens comprariam ingressos. “Acima de 60% de chances, eu vou. Menos que isso, fico em casa”. E aí poderia perder um gol que faz tremer as porcentagens e um pênalti perdito que faz 50% virar 80%. Pois entre zero e 100% tudo é jogo e vida!



  • Lucas Araújo

    Por isso que o futebol é e SEMPRE SERÁ o esporte mais emocionante do mundo. Reviravoltas sempre podem acontecer, mesmo que o fio de esperança seja finíssimo.

    Saudações do Tricolor Paulista.

  • Mateus Gonçalves

    De fato, não tem nda decidido. Considerando a partida entre Atlético e Fluminense, ficamos , ainda mais, convicto. Enquanto o galo fez, talvez, sua melhor partida no campeonato, o tricolor fez a sua pior. Nem naquele jogo contra o Náutico, o Fluminense foi tão inócuo. Ai fica a pergunta, qual Fluminense iremos assistir daqui por diante? se for o que jogou contra o Atlético, as chances de entregar o título serão grandes. Contra o Coritiba saberemos.

  • Belo e poético texto, mas a matemática é fria e não torce para ninguém 🙂

  • Vaz

    Pois é, citamos este caso outro acolá e pronto. A “ilógica” do futebol triunfou frente a lógica dos números? Nada disso, infelizmente 95% ou mais das tendências apontadas se confirmarão mas aí vamos valorizar os 5% ou menos onde não confirmou dados de 6 ou 7 rodadas atrás para justificar uma certa magia do futebol, o sobrenatural, a influência dos deuses ou sua superioridade diante dos demais esportes onde se sobrepõe pela emoção. Bobagem, futebol é apenas mais um dos esportes onde a emoção pode ser maior ou menor conforme o momento, não é magico, sobrenatural e muito menos religião como muitos querem. O esporte pode ser mais ou menos emocionante depende de preferências de cada um.
    Se assim fosse como ficaria o basquete onde é rotina jogos decididos no último segundo, ou o volêi que seria dentro desta lógica futebolística seriam os esportes que mais emocionam já que reversões de jogos e campeonatos perdidos ou ganhos acontecem a toda hora como por exemplo: nosso volei feminino que já perdeu medalha de ouro onde era certa, ganhava a final Olímpica no terceiro set por 15 a 3 (venceu os 2 set’s anteriores) e acabou perdendo a medalha por 3 set’s a 2. Em Londres tinha 99% de possibilidade de não disputar o ouro diante dos resultados, adversários e números horrorosos e acabou com a medalha de ouro no peito. Isso não faz do volei o esporte mais emocionante. Números são apenas um alerta baseado na realidade do momento cabe aos atores modifica-las. Algo como se continuares assim terminarás como os números apontam.
    Quanto mais distante da conclusão de qualquer evento maior é a distância do acerto e passa a ser tendência, a medida que o final se aproxima deixa de ser tendência e passa a ser conclusiva dependendo dos atores.
    Então o fato do São Paulo a 19 jogos do final diante dos resultados até aquele momento apontar a tendência de não ser campeão não afirma que este não seria campeão, a medida que se aproxima o final, os resultados vão confirmando ou não a tendência. Estátistica analisa somente dados em um determinado momento, é um espelho do que acontece em um espaço de tempo e não pretende ser execício de futorologia coisa que a imprensa e certos cartolas adoram colocar como defenitivas. Não leva em consideração e nem poderia a atuação de cada um, contusões, suspensões, concentração, desempenho, foco, capacidade de reação. Leva em consideração apenas os resultados passados neste campeonato em relação aos adversários que irá enfrentar novamente. É o mesmo que ocorre com pesquisas em ano eleitoral, em Março indicam uma tendência quanto mais se desenvolve a campanha e os atores se posicionam esta tendência pode ser confirmada ou totalmente superada pelo desempenho de cada candidato a ponto de reverter totalmente uma situação (para exemplo é o que acontece no munícipio de São Paulo neste momento que está confirmando a medida que os dias passam uma mudança total do cenário de 6 meses atrás).

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