O assombroso reflexo de garoto do veterano Rogério Ceni



Rogério Ceni, beirando os 40 anos, atuou como um garoto em São Januário. A defesa em chute à queima-roupa de Juninho Pernambucano, outro vovô que teima em manter-se jovem, foi um assombro pelo reflexo, a rapidez de reação e a elasticidade de um menino. Muitos meninos, diga-se, não fariam a defesa porque não têm a técnica que ele, Ceni, esbanja. A atuação do ídolo são-paulino indica que ainda tem lenha para queimar e o coloca em relevo. Muitos, ao ver sua sequência de defesas diante do Vasco, uma atrás da outra, lembraram do Mundial de 2005, quando defendeu cobrança de falta do inglês Gerrard como se subisse em escada imaginária. Sua impulsão pareceu contar com o auxílio de algum material invisível para nós, reles mortais. Diante dos cariocas o braço subitamente estendido, como uma tora inflexível, soou como ilusão de ótica. Foi real!

Juninho, após a escandalosa defesa de Ceni, que deveria rodar o mundo e entrar em votação das maiorais do ano, perdeu a paciência e deu uma “bronca” no ex-companheiro de Seleção. Deu para ver no semblante de Ceni a felicidade do renascido. O goleiro, não vamos nos esquecer, passou por alguns períodos de quarentena por lesões, essas sim frutos da idade e os desgastes que ela causa. Ao levantar-se do gramado o são-paulino deve ter pensado: “é de batalhas que é feita a vida!”, como na expressão reativa da música de Raul Seixas.

Para manter-se motivado tendo conquistado de tudo com a camisa tricolor (o fato de faltar a Copa do Brasil perde-se na poeira do que é mais importante, uma Libertadores e um Mundial) o sujeito tem que ter brio mental, prazer insaciável no que faz. Vamos lembrar que Ronaldo, aos 33 anos, parou de jogar e expressou a “falência” do corpo, não correspondendo mais. Ceni, ao que parece, fez ouvidos moucos aos sonos de articulações e músculos. Ele resistiu e diante do Vasco provou que, agora nos sábios pensamentos gaúchos, “não está morto quem peleia”.

Sim, goleiros são mais longevos. Isso é clássico no futebol. A posição é privilegiada nesse sentido. Mas uma coisa é prolongar a carreira, outra é manter altíssimo nível. Marcos Assunção resolve em cobranças de falta, assim como o próprio Juninho, e há outros inúmeros casos. Mas na posição da grama que falta e da solidão como guia os erros é que são fatais e os acertos elogiados moderadamente. Não sei se será um ano mais, dou ou até três. O fato é que Rogério veio, viu e venceu como um imperador da meta são-paulina. E deixou claro que por ora o espaço ainda é seu e ninguém tasca. Sua importância não está restrita à indiscutível liderança, voz ativa que tem no clube. Ela ganha tentáculos fatais com defesas primorosas.

Você pode detestar Ceni (conheço gente com aversão doentia pelo rapaz), mas não deve negar o seu brilho técnico.

PS: Por que a Fifa não elege, como faz com o gol, a maior defesa do ano? Defesas de goleiro são artes restritas a uns poucos vocacionados. Acorda, Fifa!



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