Tinha de haver um guerreiro…



Não só de Neymares vivem grandes times. É preciso um sujeito ralador, feito mais de suor que de apuro, moldado mais por barro que por bronze. O talento desacompanhado da gana não funciona nas searas das américas que nasceram sob o signo da exploração. Na Libertadores, as rugas da batalha são fundamentais. Quando os cenhos franziam no mítico Urbano Caldeira pela eliminação iminente, quando o vento soprava doloroso pelos lados do Macuco e Marapé, quando fios de pranto turvavam alguns rostos angustiado, havia um ícone a ser acionado por Muricy. Não à toa apelidado de Guerreiro da Vila, já nos últimos respiros da carreira, Leonardo Lourenço Bastos, ou simplesmente Léo, virou a sorte. No espaço das missões alvinegras, onde gigantes se ergueram tantas vezes, o lateral esquerdo reafirmou sua condição de totem. Na substituição, correu para o campo com os punhos cerrados e o olhar esbugalhado da fome de vitória nunca tardia aos 37 anos de idade. A dinâmica do jogo passou a obedecer à dinâmica de Léo. Incisivo, deu fim aos toques laterais, como agulha a perfurar a defesa argentina. E assim saiu o empate, na costura que resultou no gol de Alan Kardec.

Quis o destino então que a definição fosse nos pênaltis, para alguns o momento em que Deus joga dados, para outros o exalar máximo da tensão. Quis o destino que na cal as coisas se definissem, cal que reproduz em seu alvor a camisa gloriosa do Santos. Mas quis, sobretudo, que a cobrança decisiva fosse dele, Léo. Tarô, búzios ou quiromancias não ousariam supor. Houve o bafejo mais honesto desses deuses que ficam empoleirados no Olimpo da bola a arfar: hoje é seu dia, companheiro. O que é do homem ninguém toma! Logo ele, que em 2002 fez o gol que deu paz após 18 anos de tormentas nos corações alvinegras. Ali, dez anos mais jovem, Léo selou a vitória sobre o Corinthians, justamente o rival que agora o Peixe reencontrará, desta feita em uma competição internacional, graças a esse baixinho e obstinado jogador.

O Santos teve Pelé, Pepe, Pita, Pagão, Coutinho, Serginho, Robinho e agora tem Ganso e Neymar. Punhados de meias e atacantes que elaboraram em jarras as emotivas lágrimas alvinegras. Porém, que não esqueça jamais do obreiro Léo e sua história de fibra nos tufos da Vila Belmiro. Ele que pelo clube é multicampeão, com paulistas, nacional (Brasileiro e Copa do Brasil) e Libertadores. Ele que defende o clube no ano do centenário. Ele que compensa o passar dos anos com raro denodo, talvez garimpado numa alma de luta. Ele que merece o maiúsculo divinizador no pronome pessoal Ele não pelo virtuosismo com a bola, mas pela vontade de ostentar essa camisa.



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