Vício, companheiro inseparável do jogador-problema



Uma vez jogador-problema, sempre jogador-problema. Essa é a máxima que o tempo cisma em reafirmar. Quantas vezes não foram abertas inúteis janelas para a recuperação de Adriano? Quantas vezes elas não se fecharam nas ventanias de seus deslizes? O vício, meus amigos, seja ele de que natureza for, tem uma força de Hércules. Assim como a ingratidão no poema de Augusto dos Anjos, ele é uma pantera, companheira inseparável dessa gente. Seja o vício no álcool, nos fornidos rabos de saia que perseguem os jogadores em formato de marias chuteiras, ma jogatina ou na rebeldia pura, que não aceita críticas ou divididas de adversários. Ando pessimista com os temperamentais, embora nutra por eles deliciosa admiração por sabê-los vitais para a graça do jogo.

Vá às salas de cinema e você pode ver fragmentos de um ícone desse transbordamento de inconsequências. Trata-se de Heleno, em interpretação figadal de Rodrigo Santoro. O craque botafoguense dos anos 40 afundou-se de tal forma nos próprios vícios, de noites orgiásticas regadas a drinques, e ego superinflado que terminou sifilítico em um sanatório da cidade de Barbacena. O rapaz que queria acender um cigarro como o astro de cinema americano Jonh Wayne morreu aos 39 anos com fumo na mão e as glórias empacotadas. Uma vida intensa com uma morte melancólica!

Sempre há um novo capítulo de erupção para esse vulcões dos gramados. Quando a maré promete acalmar-se de seus ventres novas lavas quentes jorram. No domingo, o italiano Mario Balotelli mostrou ser candidato a um Heleno piorado. Uma expulsão tola que afundou o Manchester City, clube que é sobejamente tolerante com os excessos desse filho de imigrantes ganeses. Com marra a cada gol marcado e uma disposição rara para azucrinar a paz, o atacante não parece nem um pouco a fim de mudar o comportamento. Ótimo para os debates, péssimo para o time e torcida, aflita por um título nacional.

Esses jogadores-problema são sofredores, pois vítimas de seu sangue fervente e guloso. Mas conquistam carinhos eternos porque invarivalmente são craques, figuras às quais não podemos ser indiferentes. Em meio aos desperdícios tiveram auges capturados pela história. Foi o caso de Edmundo, que mesmo chutando uma câmera de TV aqui e vivendo turbulências pessoais ali, foi magistral com a bola no pés. Foi Animal, na alcunha dada por Osmar Santos, em sua qualidade técnica e na selvageria individual.

Jogadores-problema são ciosos de sua própria perfeição. Sabem-se melhores que os outros e não conseguem, por isso, construir bolsões de humildade. Não toleram os pernas de pau. Heleno, no registro bibliográfico e agora fílmico, espezinhava os mal dotados. Seus companheiros brucutus eram alvo de sua ira. Não conseguia, como um Pelé ou Messi, conviver com as diferenças, mantendo a crista lustrada sem precisar deslustrar a alheia.

Adriano está em uma escala à parte, pois não se desentende com os seus e nem com os outros. Seu problema é a falta de disciplina esportiva. Os atrasos em treinos e a dificuldade para entrar em forma, subprodutos de uma vida desregrada, uma vida não atlética. As expectativas em seu renascimento sempre desaparecem com o noticiário negativo.

Outro dia o francês Eric Cantona, que foi ídolo no Manchester United e era um desses símbolos pops do extravio comportamental, disse que agora, na meia idade, está tranquilo graças aos braços de uma mulher. Aqui está uma esperança, o amor. O coração contente talvezz possa ser uma panaceia pra turma do funil. Embora também possa depois ser um veneno, como foi com Elano. O fim de seu relacionamento com atriz global é apontado como estaca no peito do seu bom futebol. De qualquer forma, Cantona deu alguma receita para Adriano, Balotelli e outros jogadores-problema que ainda buscam sobrevida: um colo salutar de mulher.



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