A despedida teatral de um rei acossado



Enquanto assistia ao pronunciamento de José Maria Marin, na última segunda-feira, achei por alguns instantes que estava acompanhando uma esquete teatral. Do início ao fim, a civilização ideal narrada no livro Utopia pelo inglês Thomas Morus no século XVI era descrita. Não fosse a timidez, teria tocado a campainha do meu vizinho e pedido para ele me beliscar. Aquilo era demais para um estômago sensivel como o meu e queria ter certeza de que tratava-se de um mise-en-scène.

O rei depositava coroa e cetro em cima da cama e renunciava ao trono após 23 anos em meio a denúncias escabrosas. Saia de fininho, deixando uma carta de despedida que simulava peça de ficção. O missivista dizia ter sacrificado saúde e convívio familiar em prol do nosso futebol. Consta que nesse momento Chico Mendes, José Bonifácio de Andrada, Santos Dumont, Zumbi e outros ícones reviraram-se nas covas temendo perder espaço para tal herói! Em seguida, veio a emenda: ”Tive a honra de administrar o que o ser humano tem de mais humano: seus sonhos, seu sentimento…” Nessa hora engasguei com o café expresso.

O texto ganhava tom cada vez mais tragicômico a cada linha e eu não conseguia seguir meu desjejum. Ao falar da felicidade incontida de ver “nos rostos brasileiros a alegria da conquista de mais 100 títulos” eu me rendi. Nem o populista mais clássico gastaria papel com palavras tão distantes da realidade que a plebe conhece há tempos.

Não, eu não caguei de montão. Fiquei foi atônito. E dei alguma risada quando, já no fim, ele se dizia injustiçado. Lembrei das peças de Shakespeare, Porém, neste caso, o drama não era o do Rei Lear, traido pelas filhas, ou do monarca assassinado em Macbeth. O drama era dos brasileiros, que vemos nossa paixão maior ser manipulada pela cartolagem, que no ato final ainda tenta nos vender a vila de Utopia.



  • Felipe

    Waldomiro Neto, Esse foi um dos melhores textos que li, sobre a fuga cinematográfica do nosso ilustríssimo Ricardo Teixeira…!!! Abs

  • Descreveu com total precisão meu sentimento acerca da renúncia desse cidadão nojento do comando da CBF. Como se tivesse sido um sofrimento abissal ele ficar 23 anos mamando nas tetas do povo brasileiro…

    Saudações do Tricolor Paulista.

  • Luiz Marfetan

    Olha, nada mais perfeito, matou a pau!!!

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