O medo de Deivid diante do gol



Quando o homem-gol se transforma em homem quase-gol é que o futebol mostra sua faceta mais vívida. O impossível nao é impossível, meus amigos. Um erro na frente do goleiro… Ops, um erro sem haver mais goleiro, em jogo decisivo. Em um dia, já noite, foi Deivid, ao receber bola destinada a não ter outro destino que não o gol. Não havia como errar, mas ele errou. Nem em tela de videogame nem em pesadelo suarento havia como a bola caminhar daquele jeito para o pé da trave. Mas na realidade foi a ficção que prevaleceu. A esfera correu diagonal e esbarrou na sutileza. O goleiro do Vasco, Fernando Prass, definiu em sua atitude o que é um gol feito perdido. É quando o camisa 1 desencana e nem olha para ver o rumo, de tão certo que ele é. Ele já lamenta e ignora saber que o capricho aconteceu. O gol era o único caminho natural. Nem mesmo um ciclone subtropical seria capaz de afastar a bola do destino que lhe cabia. Mas o velho sobrenatural de Almeida, nos revelado por Nelson Rodrigues, deixou seu habitat natural, o Maracanã, em obras, e foi deliciar-se no Engenhão. A vítima: Deivid, o pobre Deivid.

Pobre Deivid porque é um rapaz sereno, que teve boas passagens por Corinthians, Cruzeiro e Santos. Pobre Deivid que desperdiçou a facilidade e deu uma chance para a dificuldade. Um toque leve na bola a conduziria a uma linha reta. Não fosse o místico a dar-lhe a direção ilógica. Só pode ter sido transcendental. É o não gol espírita. A administração do Engenhão, solidária ao atacante flamenguista, deveria coçar-se e contratar os velhos caça-fantasmas celebrizados por Hollywood, os ghostbusters. Ou então algum exorcista. Para questões que fogem à carne recorra-se ao especialistas.

No dia seguinte, Deivid não se fez de rogado. Assumiu o óbvio: “Perdi um gol feito”. Prestigiou assim o lógico e deixou para trás a encenação vil que costuma prevalecer nesses casos. Não culpou morrinhos artilheiros, cadarços frouxos ou ciscos no olho. Claro, deve ter revisto e repensado o lance cem vezes. Deve ter pedido aos céus que aquilo fosse mentira, que fosse possível um retorno ao passado para chutar de novo. Prometeu que se fosse lhe dada essa chance, bateria com força, ímpeto, de bico.

O lance me lembrou aquela filme do alemão Wim Wenders: O medo do goleiro diante do pênalti. Agora, o medo do atacante diante do gol. A certeza do gol apavorou Deivid. O simples fez-se complexo. Assim sempre será candidato a imagem das mais inacreditáveis. Com a ação do sobrenatural de Almeida e a omissão do anjo da guarda do goleador, um capítulo de incredulidade inscreveu-se nas águas da Guanabara.



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