O melancólico roteiro de um tal de Elano



Elano fez um dia parte de história das mais comoventes. Ao lado de pródigos garotos da costela santista, o trio Alex, Diego e Robinho, e do guerreiro Léo, encerrou amargos 18 anos de jejum de títulos na morada alvinegra. Conquistou o coração do torcedor por ser ator importante naquela fase. Ter voltado ao clube, no início do ano passado, fez, por isso mesmo, os corações da Baixada galoparem de emoção. E agora temos esse tédio todo! Do amor cheio de hormônios se fez um broxar absoluto, um cheiro de fim de feira. A cabeça baixa, o futebol sem cor, sem vibração, são melancólicos. E o apego parece estar acabando.

É triste ver o que temos visto. Elano inexiste no time do Santos. Depois de um início de muita volúpia, no Paulistão do ano passado, quando crítica e público o exaltavam, sua crista foi baixando, baixando, baixando… A queda foi, por um tempo, associada a uma frustração amorosa com uma famosa e bela atriz. No linguajar popular era o chute na bunda a produzir uma enorme fossa. Perdoável, convenhamos! Quem nunca sofreu por amor e viu seu ofício sofrer as consequências? Não somos máquinas, somos almas abraçadas por desejos. Mas as dores tendem a cicatrizar e até transformarem-se em injeções de novas vontade. O ego amassado pelo abandono traz a sanha de mostrar-se maior, de reconquistar razões para sorrir. Mas isso não aconteceu. Elano seguiu com atuações tímidas, muito distantes das promessas que sua recente campanha com a Seleção Brasileira dunguista havia vendido.

Os meses finais de 2011 fecharam as cortinas de um ano péssimo. Contradição aparente, já que fora o tempo da conquista da Libertadores após quase 50 anos. Mas a paciência da torcida com Elano fora para o espaço. Só que a memória afaga a esperança desde que o samba é samba. 2012 traria a boa nova, o ressurgimento do bom futebol. E no primeiro ato a água tirou o gosto do chope e a apatia ressurgiu num gesto estranho. Ainda no primeiro tempo, fez o sinal pedindo substituição. Fosse uma lesão e seria normal. Mas não, foi simples pedido. Muricy Ramalho não gostou e agora sabemos que há ranço das decisões passadas do comandante de meter-lhe no banco de reservas.

O ambiente azedou e temos então o avesso do que se prometia. Bem sabemos que duvidar não costuma ser bom negócio nessa vida de incertezas. Mas é difícil ver sinal de reviravolta. A culpa disso está no rosto de Elano, nos esgares de insatisfação. Ele parece não querer, parece estar desconfortável. A cada má atuação alimenta a impaciência da arquibancada. Por isso o presidente santista deve ter afirmado que não se oporá caso ele queira deixar o clube. Notou que diante do incômodo do velho ídolo está a oportunidade de economizar uma boa grana (cartolas tem seus pragmatismos). Mas se há um ano fossemos arriscar um roteiro para essa história, ele seria certamente muito menos aborrecido. E sempre sopra o velho senhor da coisa feita: se era para ser assim, que não tivesse voltado!



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