O amor eterno e seus regressos na bola



Esses objetos insistentes do desejo são parte viva do querer futebolístico. É o traço romanesco do jogo de bola, sua porção de Conto de Fadas. O amor obsessivo, aquele apelo da volta para cantar sob a chorosa sanfona de Dominguinhos: “Estou de volta pro meu aconchego, trazando na mala bastante saudades!” . Aquela coisa bíblica do filho pródigo transposta para o esporte que, mesmo engolido pela máquina de fazer dinheiro, preserva sua fração de sentimentos. O jogador que deu cachoeiras, ou até mesmo alguns pingos, de alegria para o clube e deixou um rastro de boas memórias. Com elas, o sonho de ainda experimentar o gostinho de seus gols, passes, defesas, lutas, gritos… É o namorado(a) que foi-se embora com a promessa de retorno. É sempre aquela frase na despedida, em meio a lágrimas: “Saio para fazer minha independência financeira, mas um dia volto a jogar aqui!”

O Flamengo teve Vagner Love e suas tranças berrantes por poucos meses, o suficiente para querê-lo de volta a todo instante. O atacante, aliás, também recebia da alcova palmeirense, mas sua segunda passagem, amarga, deu fim à pulsação acelerada. Adriano, então, lembra o “malandro” cantado por Elza Soares, na sua relação com o Flamengo. O Rubro-Negro, a cada presepada da sua criatura, ameaça fazer uma nova festa para sua recepção. É como se dissesse: “Assim você mata o teu Mengo de dor!”.

Aliás, quando a paixão é pela cria das costelas, como é o caso de Adriano com o time carioca, o eterno retorno é mais comum. Robinho, alimentado nos seios santistas, voltou para o colo alvinegro uma vez e, a cada semestre, volta a flertar com seu velho amor. O mesmo aconteceu com Giovanni, chamado de Messias pelos santistas por ter reconstruido a estrada do clube, em suas três passagens pela Vila Belmiro. É como se fosse um destino manifesto, como agora no caso de Thiago Neves, pela terceira vez vestindo a camisa do Fluminense. Basta ouvir os são-paulinos sobre Lugano e Lugano sobre os são-paulinos. Um invisível muro, cimentado com variáveis, separa os amantes. O Tevez que os corintianos não esquecem! Ano passado a possibilidade de uma volta gerou palpítações alvinegras. A paixão jamais foi esquecida e o ídolo tem sempre as portas escancaradas, mesmo que esteja coberto de dólares e euros. Mas o desejo do retorno sobrevive até depois das chuteiras penduradas, como Maradona debruçado nas cabines da Bombonera gritando insanamente por seu Boca Juniors.

Há quem renegue um amor cultivado, como um Jasão a retribuir com veneno o açúcar de Medeia. Tal não foi a fúria gremista quando Ronaldinho, que já havia sido infiel a quem lhe deu a mão, aplicou um balão nos Pampas para jogar no Flamengo e recusar uma reconciliação tardia. É do parto multiplicada pelos atos! Ou então o português Figo, após anos de Barcelona, hostilizado no Camp Nou por defender o merengue do rival Real Madrid. Aí vira “molejo de amor machucado”, ferida que não cicatriza, não tem perdão! E então o desejo se transforma em desprezo!



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