O que é que o Adriano tem?



Em recente coluna na Folha de São Paulo, a jornalista Eliane Cantanhede, diante de mais um episódio em que o senador José Sarney mostrava ter um poder esquisitamente grande no pais, questionou em sua coluna: “O que é que o Sarney tem?”. A pergunta, que originalmente queria desvendar os atributos da baiana, na música de Dorival Caymmi, já tem o seu personagem no futebol. Afinal, o que é que o Adriano tem? Por que técnicos, jogadores e, acima deles, os clubes, passam tanto a mão na sua cabeça? Por que quanto mais problemas ele cria mais recebe o raro afago cristão em um esporte essencialmente pagão?

Em tempos que começam a ficar remotos Adriano mostrou instinto de artilheiro. Corpanzil hostil, deslocava, amendrotador, os zagueiros, e, com potência nos pés, estufava redes. Pelo alto, com força física e aptidão, cabeceava também para o barbante. Em suma, fazia o que o povo gosta: Gol! Tivesse seguido assim, qualquer clube o desejaria. A cobiça seria naturalmente grande. Mas isso, como bem ressaltei, é passado! Ao menos de cinco anos para cá o atacante foi uma caricatura de jogador. Na Copa de 2006, dividiu com Ronaldo as notícias de sobrepeso e excessos alimentares. As manchetes com seu nome estariam muito mais bem ilustradas em cadernos de polícia e fofoca. Bebida, confusões com namorada, foto com supostos traficantes e, pasmem (!!), até tiro estão no cardápio. Mas futebol mesmo que é bom… Sua forma física está sempre ali, rogando por quatro, cinco quilos a menos (segundo o discurso repetido pelo próprio).

Diante dessa teia de não futebol, o que fazem grandes clubes? Abrigam Adriano em seus braços, dão leitinho e ainda o fazem ninar! Na Inter de Milão, Mourinho, cuja fama é de durão, teve paciência de dar inveja a Jó com o atacante. O Flamengo, saudoso de sua criatura, o trouxe de volta em meio às suas ameaças de abandonar a carreira por depressão, crise existencial, essas coisas da alma e psiquê humanas. Vá lá que foi importante no título brasileiro do Rubro-Negro, mas às vésperas das rodadas finais queimou o pé em um escapamento de moto e ficou fora, em roteiro para revistinhas de anedota do Ari Toledo. E ainda teve a Roma, onde pretendia refundar o império de Julio Cesar, Nero, Trajano, Calígula e outros… Pois esse novo império foi vazio, sem gols, sem nada. E aí o Corinthians o escolheu como sucessor do Fenômeno. Na temporada, uma nova lesão e aparições tímidas. Um gol decisivo contra o Atlético-MG, mas gol decisivo o peruano Ramirez também fez, contra o Figueirense, assim como trilhões de jogadores já fizeram na história anciã do jogo de bola.

O paternalismo no nosso futebol talvez explique tamanha paciência e compreensão. Não houvesse essa docilidade e provavelmente Adriano experimentaria a ruína definitiva de sua vida. Mas essa paternalização só pode ter fundamento em ideias humanitárias, porque retorno financeiro e visibilidade cada vez o atacante dá menos a quem o tem em suas fileiras. Ou então, Adriano é um sujeito tão carismático, tão querido, que os amigos dão-lhe os braços e garantem seu sustento milionário mesmo sem jogar. O fato é que algo misterioso o Adriano tem!!!



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