Barcelona e seu futebol Vick, Cristina



A bola é do Barcelona e ninguém tasca! Vez por outra eles concedem ao adversário o sabor de tocar nela para, pouco depois, roubar o doce da boca das ingênuas crianças. Tamanha é a voracidade dos azuis-grená pela esfera, que mal o rival sai jogando e eles já armam uma blitzkrieg para roubá-la. Sempre fazem isso, é verdade, o que talvez invalide o uso do termo alemão para guerra-relâmpago, pois os exércitos germânicos o faziam de surpresa. No caso desse estilo de pressão catalã, ele é previsível, porém inevitável. O oponente, diante da proximidade de quatro, cinco sujeitos de azul, enrola-se. E eis que a pelota já está em pés barcelonistas. Em pés, múltiplos pés, pois ela vai no toc-toc-toc-toc incessante. Dá para imaginar, na tela, milhares de desenhos costurados pelas trocas de passes intermináveis desses caras. Em um jogo são erguidas novas torres da Igreja da Sagrada Aliança. É um futebol Gaudí, de arquitetura caprichosa, sem um chutão, nem mesmo de quem não se deveria esperar muito esmero, tal um Puyol ou um Abidal. Puyol, aliás, nascido no berço dessa filosofia e cujo aspecto nos juraria tratar-se de Átila, o Huno, mas que enquadrou-se à perfeição na delicadeza do balet culezista.

Quem enfrenta o Barça acaba praticando outra modalidade que não o futebol: corrida de baratas tontas. São joões bobos na inglória tarefa de tirar a bola a quem de fato pertence. Todos saem com labirintite do gramado, tontos e derrotados. O Santos, sabemos, foi apenas mais uma vítima. Poderosos endinheirados, como Real Madrid, Milan e Arsenal, já passaram por essa experiência amarga. Não importa quem esteja do outro lado, a fórmula é a mesma, o enredo é repetido á fadiga. Sabem esses inventores que sua invenção é implacável, independe das criações alheiras. É uma orquestra em que não há um único maestro, há tantos, de tal forma que não apenas a bola é distribuida, mas a baqueta também vai de mão em mão. Muitos passadores, muitos organizadores, muitos velocistas…. Os outros são de fato os outros, não há distinção.

O Barcelona, que orgulha-se de ser mais que um time (é seu lema, Més que um clube, em catalão!), pratica hoje mais que um jogo. Em campo, aplica uma filosofia. Nela, a bola é tratada como rainha, digna de tratamento de luxo. Quando for ver o Barcelona, seja no sofá de casa, seja na privilegiada condição de espectador no estádio, pense em Scarlett Johanson e Rebeca Hall no filme Vick, Cristina, Barcelona, do Woody Allen. É um jogo de beldades, de calorosas delicias, de pura gostosura treinada. Saiba que em mais de 70% do tempo você verá um time único, uma exibição de perícia com a bola. Uma lição de disciplina e execução plena de uma ideia. Todos obedecem às ordens de não individualizar. Ninguém se arrisca a romper com a cartilha. O Barcelona é o quartel onde se aprende a embelezar o jogo. Azar do Santos que teve pela frente esse assombro! Sorte do futebol, que está vivendo talvez um capítulo inédito de sofisticação.



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