Sócrates, o nosso José brasileiro: a luz se apagou!



O maior legado de Sócrates não foi seu calcanhar puro, mas o calcanhar de sua lingua. O ex-jogador, que nos deixou precocemente neste domingo, encobriu a bola com o pensamento. Justo ele, que carregava no batismo o nome do filósofo grego e, no sobrenome, Brasileiro. Tudo muito apropriado: um pensador da nossa brasilidade, que foi além das ditas quatro linhas. No terreno esportivo foi o prócer da Democracia Corintiana, a trombar com antigos conceitos de patrão-empregado. E já naquele alvorecer dos anos 80, foi rosto notório nas Diretas Já, com as camisas amarelas e multidões reunidas. Ali já marcava terreno a dizer: jogador pode pensar, não apenas correr e chutar uma bola.

Há dois meses estive em sua casa com os repórteres Alexandre Lozetti, Paulo Motoryn e Victor Pozella, e o fotógrafo Ari Ferreira, para uma entrevista após recuperação de segunda internação. Com o corpo frágil e a fala vagarosa, Sócrates nos contava de seus planos para mexer com a juventude. Em meio a discursos otimistas sobre o futuro do país, que, na sua visão, evolui de acordo com sua jovem idade, dizia como engajar as crianças na escola a uma nova mentalidade. Defendia a informação e a reflexão como armas contra a demagogia. Discorria sobre isso em espaço onde repousavam livros analíticos sobre a América Latina, os poderosos, Karl Marx e a antibiografia de José Sarney. Sempre a mostrar que na dinâmica esportiva deve haver cérebro para que da paixão surja a contestação.

Bem sabemos, no futebol brasileiro impera, ainda, a cartolagem perpétua. Anos atrás, Sócrates, a fim de protestar contra essa lógica da manutenção, lançou sua anticandidatura à presidência da CBF. Encarnou, à sua maneira, o José de Carlos Drummond de Andrade (aquele que ama, faz versos, protesta mesmo em meio ao fim da festa, na escuridão, quando a luz apagou-se). Foi na contracorrente do poder e esse é a mais importante lição que nos deixou. É triste que um homem assim, desse tamanho, desencarne tão cedo enquanto velhacos sigam aí, flertando com os centenários. A vida é injusta, bem sabemos, mas os resistentes sempre conseguem seu espaço.

Por dessas firulas da vida, minha primeira memória futebolística foi um gol do Doutor. O gol da vitória brasileira sobre a Espanha, no Mundial de 86, em que ele erguia o braço como a foice do trabalhador a romper o terreno do poderoso. Ali já notava uma atitude a destacar-se em espaço de cabeça baixa. Sócrates, assim como o filósofo, experimentou agora sua cicuta. E nós ficamos mais pobres.



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