O acaso dá sua bênção a Adriano



Ah, essas cantigas futebolísticas, esses dramas que nos tomam de assalto assim, num pulo. Um atacadão de acasos que mais parecem um varejo de destinos. O sujeito tá lá, brigando contra a balança, com dificuldade de locomoção, mas conduz sua história e a renova. Adriano, ainda rotundo, meteu o pé na bola e deu uma vitória dessas que lavam a alma da corintianada. O investimento no império, que vinha sendo questionado, agora esboça compensar. Transpondo para os campos os dizeres do poeta Vinicius para as fêmeas, o futebol tem que ter algo além da beleza, algo de triste, que chora, que é só perdão. O drama, os épicos, o improviso dos fatos é que faz do jogo de bola o que ele é, uma reinvenção das nossas emoções.

O destino, o fado português, tem mania de atuar nos verdes campos. O gol de Adriano contra o Atlético me lembrou instantaneamente a cabeçada de sina de Ronaldo contra o Palmeiras, nos seus primeiros passos com a camisa alvinegra. Porque havia ali, como aqui, cataratas de desconfiança. Desconfiança que foi fulminada pelo que está escrito, talvez nas estrelas, talvez em grutas, talvez na alma da torcida. Adriano, volta e meia flagrado com um copo de cerveja e cara meio que chorosa, ainda é ungido pelos Deuses da Bola. Esses caras míticos que vivem na terra do jogo não estão preocupados em formar redes moralistas, eles aplicam o condão a errantes e mocinhos.

Não há muita explicação, vá. Há sim muitos roteiros consagradores. Se o Corinthians levantar esse quinto caneco nacional Adriano já terá seu nome na galeria do Parque São Jorge. Mesmo que não toque na bola contra Figueirense e Palmeiras, esse gol estará na caprichada edição dos principais lances da conquista. Ao lado do Cachito, aquele moço das terras incas que contra o Ceará fez Iracema curvar-se ao poderio do Timão. O Imperador renasceu em segundos, porque colocou na rede uma bola vital. Foi isso que fez, em um lance, acender chama que vários não se fazem capazes de acender. Para que a saga adquirisse traços perfeitos, o gol saiu quando o jogo caminhava para o fim, como a Fiel, sofredora em essência, gosta. No suadouro asfalto final. Assim é, meus amigos, o futebol. Esse jogo que não cansa de nos ensinar que a vida é muito mais que uma tabela periódica.



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