Os dribladores fazem a alegria nos campos



Nada seduz mais no futebol que o drible. Diante dele, ficamos atônitos, reverentes, escravizados pela beleza que comporta. Nos gera prazer sádico, já que a finta é uma violação que consagra o driblador e, no mais das vezes, ridiculariza a vítima. Quantas vezes, numa pelada de bairro ou praia, enfiamos a mão na bola quando alguém tenta sabotar nossa honra com a tentativa de aplicar um chapéu? Ou então agarramos o sujeito após ele passar a bola entre os nossos pés? O drible é doloroso quando dele somos vítima por nos revelar fracos, vulneráveis aos caprichos alheios. Não à toa, alguns malabarismos são alvo da fúria de cabeças de bagre que, indignados, esbravejam: “Isso aqui é sério, ele está tentando nos humilhar!” Os caras não querem, na verdade, ser profanados na sua sagrada honra, seja lá o que isso signifique.

Garrincha foi um célebre violador, tanto que fez de seus marcadores todos iguais, Joões unidos na dor. Era um atrás do outro, sem pesar. Messi e Neymar seguem nessa mesma linha, dando açúcar para as platéias e sal para os adversários.

Há diferenças na forma que o brasileiro e o argentino rompem a auto-estima de quem deles se aproxima. Messi dribla com a bola colada no pé, a esconde sutilmente do rival, que se pergunta: onde ela está? Neymar já deixa a bola bem visível, alonga sua trajetória, e a conduz por diversas geometrias. Táticas são discutidas à exaustão, mas os ricos dribladores acabam por ganhar nossa admiração maior. Eles valem o ingresso em qualquer situação, pois garantem o improviso, sátira e a tal violação. Sorte do time que os tem, seus torcedores são mais felizes. E o futebol ganha ao perceber que sua raiz fundamental ainda se preserva: uns driblam, outros são driblados e o público chora e ri.



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