Rivaldo, uma overdose são-paulina



O paciente agoniza, empapado de suor, e geme, sacodindo a cabeça para lá e para cá: Rivaldo… Rivaldo… Rivaldo…. Passou o ano assim, intoxicado, só pensando nisso: RIVALDO! Eis o São Paulo 2011, um time que virou refém de um assunto: Rivaldo. Um ex-melhor do mundo, sim, mas que hoje tem 38 anos e não pode dar o que um dia deu para outros. Óbvio ululante, titio Nelson. Mas, fechando os olhos para as obviedades e seu chicote, o São Paulo não entendeu o notório e permitiu que ele fosse o centro do debate. Os fatos comprovam: semana após semana, em meio à contratação e expectativa para estreia de Luis Fabiano, as boas e má fases de Lucas, os desvarios e queixumes de Dagoberto, enfiava-se sempre o assunto Rivaldo.

Basta grifar periodicamente e veremos o quanto o quase quarentão jogador foi o tema principal do Tricolor. No começo, com Carpegiani, era sua manutenção no banco. Um golaço logo na estreia jogou tempero artificial na boca são-paulina: ele ainda é O CARA. Ledo engano, como provariam algumas atuações modorrentas do atleta. Na queda do treinador viria o resmungo do meia, sentindo-se discriminado (a carreira inteira ele assim se sentiu), pedindo a titularidade, garantindo pode ser a solução para todos os problemas. Com Adilson, ele permaneceu na crista, mas acabou tendo o desejo de estar efetivamente em campo realizado. E o que se resolveu? Um gol aqui, outro ali… Não importa, o fato é que seguiu sendo o assunto. E o foi logo que Leão chegou, com seus rugidos de décadas: Rivaldo não é fundamental! Pimba, essa deve ter doido na alma, deve ter perfurado o orgulho do craque.

Rivaldo, pelo que representou, pesa onde estiver. Ainda mais quando adota o discurso de sim, eu posso! Mas com isso não colabora para que o epílogo de sua carreira seja de alto nível. Caso assumisse que pode bem menos hoje em dia do que já pode e teria anos finais nobres. Mas como, em delírio, ainda se vê no auge, precisaria que fizessem isso por ele. Que dessem o famoso toque: Aí, meu, você foi um jogador brilhante, dos maiores, mas isso já passou. Tudo passa, afinal. A qualidade você tem, mas os piques, a força física, isso não tem mais”. O São Paulo não fez, impedindo que ele enxergasse a dolorosa realidade: o tempo é cruel. Fosse a diretoria do Morumbi tão equilibrada e planejada como por muito tempo trombeteou e teria chamado Rivaldo no canto, antes do acerto, para alertar: “Você pode ser útil, queremos você conosco para ser uma referência no grupo, para jogar alguns minutos, de vez em quando, e dar sua contribuição técnica. Mas você não será o centro porque não é mais o centro”. Franqueza é útil e engrandece! A sensação é de que endossaram o irrealismo do antigo craque. Jogaram a bomba para os técnicos, que, quando o deixavam no banco eram tachados de vilões, tinhosos desconhecedores do futebol, pela torcida que pedia por ele jogo após jogo.

Resumo da ópera bufa: O São Paulo deixou-se ficar refém da presença de Rivaldo e não tirou proveito do que poderia tirar. Agora virou dor de cabeça e o ano está quase perdido.



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