E a cultura do medo mostra suas asas



“Uh, vai apanhar! Uh, vai apanhar!””Tem um palhaço querendo aparecer, e vai morrer!” “Vem, vem, vem tomar porrada, vem!” Garoto, nos anos 80, eu começava a aventurar-me em estádios de futebol ao lado do meu pai e estranhava esses urros tribais ecoando da arquibancada. Estava iniciando a minha paixão pelo jogo de bola, mas um tanto confuso, admito! Ao mesmo tempo que me afeiçoava pelo esporte e suas imprevisibilidades, e ía aprendendo a amar um clube, ouvia aqueles coros sanguinários, ameaçadores, e já identificava uma cultura do medo naquele ambiente.

A violência ali, à espreita, pronta para roubar o protagonismo da bola se lhe dessem chance. E ela roubou, na minha fuça, quando tinha 12 anos e estava na fila de ingressos de um Santos x São Paulo. Pedras começaram a voar, um corre-corre frenético, ‘machões’ a pular e fazer gestos para outros ‘machões’, num desfile amendrotador e bisonho de reafirmação da masculinidade. Estava claro na minha cabeça: o futebol é um jogo, muitas vezes um espetáculo, mas tem um lado sórdido!

Essas brutalidades que vivenciei nos primeiros anos de torcedor me impediram de ver estádio de futebol como um palco de lazer, tal qual cinema, museu ou teatro. Ir a um jogo era expor-se ao risco da barbárie. Era saber que lá estariam marginais doidos para espancar pelo simples prazer de espancar.

Tenho conhecidos que “não ousam” vestir a camisa de seu clube do coração nas ruas de São Paulo. A cultura do medo se alastrou e podou as manifestações mais genuinas do ato de torcer. Nesta terça, um grupo de arruaceiros agrediu o jovem jogador João Vitor, do Palmeiras. Seu crime? Ter perdido um pênalti na semifinal do Paulistão. São da mesma raiz daqueles que eu ouvia bradar: “Uh, vai apanhar!”



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