Bottinelli escreve a história incerta por chutes tortos



O herói improvável não tem pinta de herói, é visto por todos como um coadjuvante entre vários coadjuvantes. Seu heroismo desponta por acaso, em um contexto em que não se atira uma moeda por ele. Se sua história for contada antes do ato consagrador será vista como obra de um ficcionista imaginativo, como um Lewis Carroll e sua Alice no País das Maravilhas. Perguntar-lhe-ão se o consumo lisérgico foi alto para criar tal roteiro. Quando então ele encarna o heroismo, todos ficam boquiabertos, a plateia coça os olhos, não crê e ri a gargalhada da surpresa.

Pois o futebol adora heróis improváveis e de tempos em tempos nos conta suas peripécias. Curioso que seus dias de glória não são em jogos comuns, em que poderia ser diminuida pela opacidade do jogo. Não! Elas acontece, no mais da vezes, em partidas ilustres, que roubam atenção de massas, que a TV capta nos mínimos detalhes. E aí o heroismo vira grandiloquente e é comentando exaustivamente nas ruas, padarias, botequins e outros cantos. Adriano Gabiru fez o Barcelona prostrar-se por um instante aos seus pés e de o título Mundial ao Internacional. O próprio Barça viu Belletti, um lateral que não era exatamente um protagonista, dar-lhe um título continental. Josimar, jogador modesto, fez dois golaços pelo Brasil na Copa do Mundo de 86 e esse é basicamente seu currículo até hoje. Já vimos, portanto, muitos herois improváveis por aí.

E neste domingo, o Engenhão viu mais uma demonstração de que os deuses da bola adoram transformar figurantes em reis. Bottinelli, um argentino que circulava ali comum, mais um, a esquentar o banco do Flamengo fez o Fla-Flu, clássico que, nas palavras de Nelson Rodrigues, começou 40 minutosantes do nada, ter um novo capítulo. E foi justamente depois de 40 minutos, 40 minutos em que tudo parecia poder acontecer, menos uma virada rubro-negra. Mas de Bottinelli sairiam duas botinadas a redesenhar a história. Dois chutes improváveis de um herói improvável. Dois chutes com curvas improváveis, com destinos improváveis. Diz a sabedoria popular que Deus escreve certo por linhas tortas. Pois Bottinelli chutou torto por curvas certas.De repente, de onde nada se esperava tudo se fez. Poderia ter sido num Flamengo x Olaria ou em um amistoso de fim de ano. Mas não, o milagre se fez num Fla-Flu, o clássico mais bem apelidado entre todos.

Pode ser que Bottinelli nunca mais brilhe. Os cáusticos dizem que isso, aliás, é o mais provável. Mas assim como Cocada fez o Maracanã tremer e os fatos terem outra trajetória no Maracaná para depois sair da história, o argentino já teve seu dia dourado no jogo de bola. Ele não esquecerá! A torcida não esquecerá! A mídia não esquecerá! Coadjuvante ele nunca mais será. Nos bate-papos de memória o jogo estará sempre presente, em meio a cervejas que gelam. Nos programas que remexem com o que passou as imagens lá estarão. Às vésperas de novos Fla-Flus, com mais 90 minutos depois do tudo, lá estará a lembrança do feito. O herói improvável não tem rumo de craque, mas desconhece o anonimato.



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