Gol, momento de dar voz à alegria



Cansamos de ouvir falar que o gol é o êxtase do futebol, o zênite para um jogador. Seja em uma partida amistosa ou em uma final da Copa do Mundo, ser o sujeito que meteu a bola na rede é um prazer súbito e supremo. É uma espécie de gozo, que surge como avalanche e logo rende-se ao cansaço. Não precisa ser jogador de futebol para experimentar essa sensação. Em qualquer pelada com os amigos você fatalmente já tomou goles desse suco divino. Mesmo que seja um perna de pau, ao menos um golzinho já fez por aí, com bola de meia, capotão ou profissional. Os meninos na escola, no recreio, provam desse néctar fugaz. É indescritível! São segundos em que a auto-estima incha, você torna-se rei provisório, os problemas escondem-se e o sangue flui à jato pela cabeça. Quem rompe a meta rival tem um impulso e responde a ele de diversas maneiras. Há quem se jogue no chão, quem saia pulando, quem atira-se em companheiros, quem não resiste e provoca um adversário, quem grita, quem arranca a camisa, quem ergue o dedo, quem chora, quem se contorce, quem não crê! Quando o prazer toma conta, a razão é alijada, não tem voz nem vez. É o ato em que as delícias governam.

É por tudo isso que comemoraçao de um gol não deveria sofrer censuras ou imposições. A liberdade de expressar o prazer jamais deveria submeter-se a supervisões. Trata-se de um átimo de liberdade em meio a um mundo hostil. Um rapaz que nunca teve espaço no mundo tem instantes de glória inéditos . Por isso que a torcida berra, ergue os braços em meio a abraços e sorri de orelha a orelha. O gol é a soltura da energia universal represada. Quantas danças já não se esboçaram após um gol, seja ele bonito, feio ou até irregular, com a mão ou impedido? A dança é a manifestação genuina da alegria, do espantar dos maus espíritos. Assim como tribos fazem seu ritual bailando, jogadores sambam e fazem coreografias porque gol é festa, é mexer o esqueleto após o ejacular, o corpo segue no ritmo do prazer.

Quando Zagallo estendeu os braços e forjou um avião em resposta aos sul-africanos, em partida amistosa, ele expôs no prazer a vingança. Quando Viola imitou um porco ao marcar no Palmeiras ou fingiu estar pescando um peixe ao fazer um gol no Santos, ele brincou com o rival no embalo da espontaneidade. O momento é de quem protagoniza, não deve sofrer restrições. Pode ser Rivaldo com a camisa cobrindo a cabeça, Alex Alves dando uma pirueta, Maradona dando um mergulho com seu corpanzil, Ronaldo pendurando-se em um alambrado ou Ronaldinho ensaiando movimentos de funk. Claro, não é recomendável fazer gestos obscenos a um adversário, pois aí é perder a esportiva e fazer da sua graça a desgraça alheia. Mas usar o humor, que também faz parte da essência desse teatro, é até recomendável. O que não se deve é impor formas de festejar, padronizando a manifestação de alegria, atirando seu cajado no chão. Deixem a moçada comemorar sem bonecos infláveis a ditar um modelo ou cartões a restringir a felicidade em nome de patrocínios. Chega de grilhões! Porque, como nos ensinou Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração.



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