A convocação da Seleção em tempos de Twitter



O Twitter dá o tom da barafunda que é a vida que Deus nos deu. Um assunto vem à tona e as opiniões, como que em uma mesa longa de bar, desfilam às cataratas. As contradições humanas ficam ali presentes, pois o desejo de palpitar nasceu antes de qualquer instinto mais apurado, ao que parece. Demasiado humano, já diria Nietzche. Convocação da Seleção Brasileira é uma grande mostra do sarará que é isso. Na manhã desta quinta, quando Mano recrutou os jogadores para o amistoso contra Gana, minha timeline (o espaço onde vão aparecendo as mensagens de cada um dos sujeitos que eu sigo) começou a abrigar as mais diversas observações, indignações e ponderações. Um festival!

A expectativa pela convocação de Ronaldinho Gaúcho era enorme. E então fez-se a luz e, com ela, os microtextos. Primeiro vinham os anúncios de que o dentucinho fora chamado. Na sequência, milhares de lamúrias com a possibilidade de ele não defender o Flamengo contra o Corinthians, dois dias depois, por conta da viagem pela Seleção. Justamente a partida entre os atuais líderes do Brasileirão, mon dieu! Muitas críticas a Mano nessa hora, em resumidos caracteres, como impõe a rede social. Teorias conspiratórias bailavam na tela: o chamamento seria para fragilizar o Fla por causa da proximidade de Andrés, presidente corintiano, com Ricardo Teixeira, alegavam uns. Era a política dos escombros dando as caras nas mentes ressabiadas. Outros diziam que o treinador nem gosta tanto do meia, só o fez pelas suas simpatias pelos amigos do Parque São Jorge, onde ganhou vasto terreno. Havia, claro, a contraparte. Os defensores de Mano, entre os quais, neste caso, eu me incluo com receio: o sujeito está com a corda apertando seu pescoço e precisa vencer o amistoso de qualquer maneira. Ronaldinho o ajudará nessa empreitada com experiência e talento.

Mas a polêmica não ficou circunscrita ao Gaúcho, longe disso. Cada nome, um porém! Cada posição, um senão! Do goleiro Julio Cesar, que vem falhando nos últimos tempos, ao atacante Hulk, queixumes foram lidos. A impressão inicial é de que temos uma catadupa de craques pelo mundo e Mano tem á disposição meia dúzia de foras-de-série por posição. Ledo engano. A não-convocação do questionadíssimo André Santos foi ilustrativa de como o Twitter sintetiza os sins e nãos do mundo futebolístico (de certa forma, diria Nelson Rodrigues, isso é bom – diga não às unanimidades (argh!). Alguns davam aleluias pelo alijamento do ex-corintiano da lista verde-e-amarela. A falha grosseira no terceiro gol da Alemanha fora a pá de cal. Outros, por sua vez, intrigaram-se com o radicalismo do treinador brazuca. O rapaz vinha sendo titular inconteste. Agora, sumariamente, nem banco merece. Marcelo, seu substituto, foi “premiado” após expulsão tosca pelo Real Madrid contra o Barcelona na véspera do anuncio. E emendavam uns: “Hernanes foi expulso contra a França e sumiu do mapa nacional. Marcelo faz o que fez e é chamado?”. Ah, a alma inquieta de nossas gentes.

Em um dado momento a discussão voltou-se para o velho problema do calendário amador brasileiro, que enfia jogos do Brasileirão no meio de compromissos da seleção, desfalcando clubes. Aí a indignação lotou minha tela. Um escândalo! E, claro, as teses de ajuda um e prejudica o outro (por que o Santos teve jogos adiados em algumas situações e esses clubes não? Eis pergunta comum). Mas outros temas fizeram uma visita nada cortês na minha cara: a ausência de Hernanes, a importância de Ronaldinho para o Fla e Ralf para o Corinthians (quem padece mais?), a eleição do santista Danilo, e por aí vai… Um mundo de opinião.

O Twitter me remeteu às graciosidades de Guimarães Rosa: “Pão e pães é questão de opiniães”. No fundo, todos querem estar num grande fórum de debates, poder dar sua visão. Enquanto isso, Mano coça a cabeça e tentar evitar o fiasco, Ronaldinho ganha sobrevida e nosso calendário segue uma várzea. Eu penso tudo isso porque, é claro, também gosto de opiniar. E registrar tudo isso na máquina condensada que é o Twitter (veja lá em valdomiro_neto você também).



  • lucas
  • Lucas P9

    Twitter atualmente levanta mais discussões do que as famosas mesas de boteco. A diferença é que um tweet é visto por uma escala global, e nisso a repercussão de uma opnião comum a muitos vira uma onda daquelas, muitas vezes incontrolável. E com isso a pressão sobre o Mano, se torna ainda maior do que se as opniões ficassem reduzidas à mesa do boteco.

  • GENTE PEDIR PRA SUA TORCIDA FICAR A FAVOR DO RICARDO TEIXERA NE,PORQUE SERA CONTRA O BRASIL EO ESTADO DE SAO PAULO SO SE FOR POR UMA CONTA MAIOR NE CONSEGUIU O ESTADIO E AGORA MAIS UMA FASENDA

  • Luiz Carlos

    Jornalismo é uma profissão.

    Como toda profissão, tem uma ética.

    O jornalista tem que primar pela responsabilidade e pela isenção, porque a matéria-prima do seu ofício é, “simplesmente”, a verdade.

    O produto que o jornalista entrega às pessoas é a informação. A qual deve ser límpida, cristalina, não contaminada de partidarismo, preferência ou algum interesse escuso.

    Isso não é comportamento de um jornalista:

    http://uolesportevetv.blogosfera.uol.com.br/2011/08/18/flamenguista-se-revolta-com-convocacao-de-ronaldinho-e-da-chilique-na-tv/

    Trata-se de um caso extremo e grave (que só possui semelhança com alguns “personagens” assumidamente galhofeiros).

    A tendenciosidade desse jornalista é um caso à parte; revela, no entanto, a falta de objetividade (de ética, portanto) que permeia o meio jornalístico (notamente, o esportivo), ainda que, felizmente, raramente de modo tão lamentável e extremado.

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