A dupla vida de Ganso e Neymar



Ganso e Neymar vivem acoplados no imaginário de críticos e torcedores. Desde que, novilhos, chegaram à titularidade no Santos não há quem consiga dissociar um do outro. Viraram juntos, de repente, a salvação da lavoura de talentos nacional. Mal sairam da incubadeira e já foram pintados como a base da Seleção Brasileira em nada menos que a Copa do Mundo que o país sediará pela segunda vez, daqui a três anos. Ao citar um, a pessoa parece ser induzida, por uma lógica angustiante, a falar do outro. Se refere-se ao desempenho de Neymar em um determinado jogo, o comentarista logo emenda uma reflexão sobre Ganso. Na Copa América, com a camisa brasileira, as analises sobre os dois também eram casadas, sofrendo com essa mesma mania. Uma mania que contamina a todos e virou uma neurose.

Nesse pequeno espaço de tempo em que se encontram sob fortes holofotes, aproxidamente dois anos, os jogadores santistas sempre estiveram sentados em uma gangorra. Geralmente, um lá em cima e outro com os pés encostados na areia. É como se, na febre maniqueista da sociedade moderna, um precisasse ser mocinho e outro vilão. Um representando a antítese do outro. Quando Neymar teve seus chiliques infantis contra o técnico Dorival Junior, outro treinador, René Simões, exaltou-se: “Estamos criando um monstro”. Um nuvem carregada de incógnitas passou a rondar sua carreira: se continuar esse garoto traquinas vai cavar a própria cova, muitos pensavam e alguns diziam. E, como contraponto, estava lá a figura de Paulo Henrique Ganso a servir de exemplo. Naquele momento, era o menino maduro, discreto, centrado… Ali já começavam os debates de boteco: Ganso tem mais futuro que Neymar! Meses depois, os figurinos foram invertidos. Neymar, que havia aceitado proposta do Santos e comia a bola, Ganso recuperava-se de grave lesão e implicava com a proposta da diretoria para renovar contrato. Agora o anjo usava moicano e o diabo mudava de lado.

A existência de um acaba ou por inflar o outro ou então esmagá-lo. Não deixa de ser uma crueldade. Afinal, se Neymar faz uma partida exuberante, a discrição de Ganso logo transforma-se em má vontade ou incompreensão. Se Ganso acerta passes milimétricos e Neymar perde gols, o pêndulo vai pro outro lado. Uma avaliação contamina a outra. Por dessas firulas do destino, que só os Deuses da bola criam, Diego e Robinho viveram no mesmo Santos clima idêntico. Até hoje, passados oito anos da separação dos amigos da chamada segunda geração de Meninos da Vila, as comparações subsistem. Não raro, alguém diz: Robinho não confirmou as expectativas que nele se depositava, mas foi mais longe que Diego. Assim como Neymar e Ganso, os dois simbolizaram uma era gloriosa de um clube, nasceram juntos para a carreira profissão, e por isso tiveram a imagem justaposta.

Ganso e Neymar, um é ego, outro alterego. Um paga fiado para o outro se empanturrar. E no ânimo do torcedor estará sempre o respaldo de um ou outro.



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