O monge e o jogador



O sujeito mergulha na noite e vai tomar sua cervejinha, bebericar uns destilados ou, mais elegantemente, degustar um vinho Chateau Duvalier. Vai lá que a vida é para todos, seja em noites de lua cheia, minguante ou quarto crescente, sopra o canto da satisfação existencial! Mas espera aí: vai lá uma ova! Um punhado de barbados, ociosos ou de interesses espúrios, põe-se a segui-lo. Juntam seus testosteronas sedentários e vão no seu rastro, com que direito sabe-se lá, à moda daqueles agentes do famigerado Doi-Codi, em tempos de chumbo, em suas frias viaturas, a inspecionar os “perturbadores da ordem pública”. A falta de gols, ausência em jogos e maus resultados do time viram pretexto para patrulheiros e suas violências senis. Querem arrancar o couro do jogador que ousa ter vida social. Ameaçam sua rotina privada. Pensam os arruaceiros carmelitos que se o atacante não está dando-lhe a alegria desejada, os gols ansiados, não têm direito às suas alegrias cotidianas desejadas, os brindes ansiados… O raciocínio dessa gente é simplista e de deixar orangotangos rubros de vergonha: atleta para ter direitos de outros comuns deve primeiro cumprir seus deveres no jogo de bola. Se levar e mantiver meu time nas alturas, pode sorver o mel da vida. Se não, deve ficar qual ostra, no seu estojinho particular.

Em tempos não distantes vimos jogador ser agredido, levar ovadas e ter carro depredado por “cometer o crime” de frequentar bares de tentações, com seus sambas de roda, suas mulheres exuberantes e pileques abertos. E sempre os arruaceiros estão distantes do torcedor comum, pertencendo a grupos que transformaram torcer em meio de subsistência. A ponto de ver sua atividade em risco pela baixa produtividade de alguns jogadores.

A boemia está aí, é uma dama que a todos oferece seus decotes. Dizem os entendidos que jogador precisa de bom estado atlético para render e se cai nesses braços perfumados além da conta o papel de avaliar é dos chefes: técnico e dirigentes. Não é para capangas e suas neuroses várias. Ronaldo, o Fenômeno, desabafou ao aposentar-se: “Agora poderei aproveitar as coisas boas da vida!”. Ele sabia que rotina de atleta é dureza, treinos, concentrações, viagens… Faz parte do ofício. No pacote, porém, não está a supervisão violenta de alguns. Ela acontece à revelia da normalidade, é um estupro da natureza. Fere qualquer estado civilizatório. E por que sempre essa prática subsiste? Por razão simples: impunidade! Não vemos essas galeras algemadas, presas, prestando serviço comunitário e banidas dos estádios. E, como se sabe, a alfabetização da vida social dá-se pela punição a quem rasga o convívio pacífico.

Estão roubando o coração e a alma dos jogadores, querendo tirar suas visceras humanas. O homem, seja ele do campo ou das urbes, sofre com as fossas do amor negado, mas o jogador NÃO PODE! O homem, esteja ele na mais gloriosa juventude ou na idade terminal, senta nas mesas de bar a cultivar suas amizades, mas o jogador NÃO PODE! O homem, seja ele monogâmico ou pan-sexual, mergulha nas mais destemidas orgias, mas jogador NÃO PODE! Tudo em nome de uma energia de superman e um superfoco no campo de jogo. E, também, para evitar que bandos patrulheiros não roubem seu sossego. É na união da moral dos monges com a cretinice mais rasteira que a vida se perde!



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