Marcos, o Santo de uma torcida só



Marcos, o popular Marcão, chega aos 38 carregando na face as rugas de uma carreira gloriosa. Os poucos cabelos são a metáfora de uma estrada asfaltada por milagres que renderam-lhe o epiteto de Santo. Não foi à toa, nada é à toa! Esse sujeito boa praça, de fala mansa e desembestada, sopra as velinhas que, de certa forma, simbolizam anos a fio dedicados a um único clube, tarefa rara nesses tempos de mutação constante, de migrações frenéticas. Dos palmeirenses recebeu e recebe afagos. Dos rivais, respeito e, por que não, uma pontinha de salutar inveja. Quem não gostaria de ter um estandarte desses em seu time?

Um ano após ser campeão do mundo com a Seleção Brasileira, ambição de dez em cada dez jogadores, foi de peito aberto, em situação que seria para muitos choque de realidade, disputar a Segunda Divisão com o seu Palestra. Poderia ter buscado refúgio em alguma máquina europeia, fugir da raia em nome de sua reputação, mas preferiu manter-se fiel ao seu berço. Mais ainda: quis reconduzir ao topo quem o pariu nos campos, como um filho que retribui à mãe os dias de gratuito aleitamento. Com o manto alviverde viveu, e ainda vive nestes últimos meses de carreira, temperos e dissabores. Mas cumpre seu destino alviverde ciente, sem omissões, com a placidez dos eleitos. Quando as coisas não funcionam, bota a boca no mundo, é verdade. Para alguns, uma ação herética, para milhares, uma essência preservada. Algo tão em voga nos dias atuais, o tal midia training não existe em seu vocabulário, pois o coração é que precisa ser verbalizado. Suas verdades fazem bem a um mundo tão rodeado de mentiras como esse do futebol. Não há e nunca houve com ele muita encenação. O seu senso de justiça é admirável. Recentemente expressou-se na recusa em bater um pênalti em jogo já ganho, com a torcida cantando em coro seu nome. Pois para Marcão, não se deve humilhar um rival, há que se respeitar quem do outro lado também trabalha e, dessa forma, se enobrece.

Mas não podemos, é claro, nos esquecer de que Marcos é Marcos porque fez do ofício de goleiro uma excelência. braços esguios e erguidos, reflexo apurado, feitos inomináveis. Seja no pênalti de Marcelinho na sublimação do Imponente Alviverde ou no chute do alemão Neuville na final de uma Copa do Mundo. As pontes, os murros, os saltos no vazio e as seguidas voltas a campo após lesões persistentes. Camurros ossos e músculos que insistiram em vitimizá-lo. Mas quem poderia detê-lo? Já está na história, já mitificou-se, já foi canonizado por corações alviverdes.

As luvas de Marcão ainda estão sob sua guarda. Em pouco tempo, porém, elas serão guardadas em um estojo qualquer. Quando este dia chegar, lágrimas rolarão nas peles palmeirenses. Lágrimas de uma saudade que já se insinua. Para os torcedores do Palmeiras, nunca mais haverá um Marcos. Sua figura está no pedestal palestrino. E é por isso que os 38 anos de existência de um Santo merecem deles vigilia e louvor.



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