Santos x Flamengo, um roteiro para além dos fatos



O Santos e Flamengo desta quarta, recheado por nove gols, foi desses jogos que no futuro poderiam ser contados como mito. À diferença dos mais antigos, porém, haverá imagens em profusão para prová-lo real, o que diminui um pouco do charme, é verdade, mas robustece a beleza do esporte. Sempre ouvi relatos de um Santos 7 x 6 Palmeiras, no Pacaembu, nos anos Pelé, cujas imagens são defeituosas e, assim, mais pesam as palavras das testemunhas oculares (e algumas, inverídicas) aos vídeos. No caso deste confronto de agora, houve transmissão aberta para alguns estados, pay-per-view para quem dele desfruta e repetições exaustivas nos programas de TV. Uma espécie de democratização do surreal, porque é a essa escola artística que a partida da Vila Belmiro pertence, com toques que não estranhariam Salvador Dali. Ela não esteve no plano da razoabilidade em nenhum momento e provocou parafusos e deslumbre em que a acompanhou, seja no sofá, seja na arquibancada. Foi como o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marques, com o imponderável dando as caras sem-cerimônia a todo momento.

O cardápio, já para a posteridade, foi farto. A começar pela distribuição de encantos entre Neymar e Ronaldinho, um craque da nova geração e outro consagrado, que faz seu cortejo final de maravilhas em solo brasileiro. O golaço do Menino da Vila, com sua sucessão de dribles desconcertantes, é desses que empolgam até o torcedor rival. Afinal, obras de arte têm o poder de serem apreciadas para além do bem e do mal. Isso para não dizer que antes, no lance do segundo gol, ele quase deixou sua marca por cobertura e, na sequência, errou uma bicicleta que se fazia mortal. Já o 10 flamenguista teve noite- reprise de suas velhas poesias, destacadamente aquelas que perpetrava nos tempos de Barcelona. Jogadas de habilidade e textura decisiva. O gol de falta foi de destreza reservada a gênios. O homem deu um drible na barreira. Bem sabemos que as barreiras saltam, pois é corrente a tentativa de se cobrir o batalhão. Mas o Gaúcho ludibriou aquela turma à sua frente e deixou-a aviltada com tamanha sacada.

Se Ronaldinho exibiu, em bola parada, sua malícia, Elano, em fase tétrica, fez papel de bufão. Escanteado por Mano Menezes na última convocação para a Seleção Brasileira, após o pouco brilho na Copa América, tentou cobrar pênalti com a controvertida, embora animadora de plateia, cavadinha. Logo ele que chutara no espaço sideral pênalti contra o Paraguai, há duas semanas. E o chute aninhou-se nos braços de Felipe que, ato contínuo, recorreu a outro malabarismo, as embaixadinhas, como que a responder: Para cima de moi, não, mon cherè!

Cavadinha, finta na barreira, embaixadinha, dribles gerais… Um festival escancarado de improviso, justamente aquilo que faz o futebol ter substancial graça. Tudo isso em um roteiro de idas e vindas, cujo suspense pelo resultado final deixaria Hitchock admirado. Os 3 a 0 iniciais do Santos pintavam uma goleada histórica que, de quebra, arrancaria a invencibilidade rubro-negra no atual Brasileiro. De repente, em poucos minutos, a trama contorceu-se. O Flamengo reagiu proporcionalmente à sua grandeza, exalada pela massa de milhões. E o jogo passou a ser o espetáculo da dúvida após o empate no primeiro tempo. Nos bancos, o duelo Luxemburgo x Muricy. No campo, dois times dinâmicos, esfomeados, querendo morder as redes. Como o desfecho foi para o Flamengo, poderia ter sido do Santos ou mesmo da igualdade, essa justiceira dos campos. Poderia ter sido tudo no mítico Urbano Caldeira, que viu gols de placa de Pelé, Marcelinho, Ronaldo, Neymar e Ronaldinho Gaúcho. Até mesmo um pouco conhecido Caneco fez das suas por lá, em uma jogada reprisada em preto-e-branco nos Grandes Momentos do Esporte por aí. Foi uma quarta de sonhos e mesmo os santistas, doloridos pela derrota, hão de admitir: valeu o ingresso!



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