A miragem do fair-play real



Seria ótimo se o tal fair-play fosse um gesto espontâneo, um pensamento traduzido em ação, em um desfile engrandecedor de sinceridades aflitas. Porém, não o é! A convenção do jogo, em código que não está talhado em pedra nem rabiscado em papel, mas absorvido pelo uso, estabeleceu apenas um momento em que ele é uma espécie de obrigação, sob pena de pegar muito mal para quem a ignora. É quando um atleta cai no chão (ás vezes, sem espírito de fair-play, simula contusão) e, então, quem está com a bola a manda para fora do gramado. Na sequência, o outro time cobra tiro de meta ou arremesso lateral nos pés do adversário, devolvendo a posse ao seu legítimo proprietário. Uma burla a isso é algo que beira o escandaloso, já está incorporado no meio, quem não o faz é visto como um sujeito antidesportivo, que tira vantagem de uma situação da qual é “beneficiário”.

Em função dessa regra tácita é que não há como fazer uma defesa de Kleber. O atacante do Palmeiras pisou na bola no jogo contra o Flamengo, na última quarta. Mesmo dizendo que ofereceu a possibilidade de jogadores do Flamengo tocarem na bola e eles terem embromado, cozinhando a jogada sem agir, em uma reação desprovida do tal jogo limpo, ele deveria ter dado uma espanada nela para longe. Isso porque não parece inteligente justificar a própria falta de fair-play na ausência de fair-play alheio. É mais ou menos aquela situação típica em que o cidadão joga lixo na rua, contribuindo para a sujeira do espaço público e as desagradáveis enchentes, e diz fazê-lo porque todos o fazem. Curioso, inclusive, que as reações em cadeia só aconteçam quando são em benefício próprio. Lindo seria se alguém cedesse seu lugar no metrô a idosos, por exemplo, quando outros o fazem, despertando um efeito dominó de cidadania. Mas, enfim, nos dias atuais soa utópico imaginar cenas dessa natureza.

Voltando ao futebol, seara que interessa por aqui, há o outro lado da moeda nos dizeres e escritos no Twitter de Kleber após toda a querela. O atacante afirmou serem volumosos os casos de falta de fair-play nos campos e que é hipocrisia, por isso, ficar discutindo o lance do jogo no Pacaembu. Embora mais uma vez tenha se escorado na mentalidade incivilizada do todo mundo faz assim ou assado, a lebre levantada tem lá seu valor. O jogo limpo inexiste no futebol. A cera, mais antiga e comum que a corrida espacial, é uma prática malandra disseminada nos campos. Para ganhar tempo, atletas enrolam para repor a bola, jogadores deixam o campo em velocidade de jabuti em momentos de substituição e forjam contusões, contorcendo-se artisticamente no relvado. Isso sem citar técnicos que jogam uma segunda bola na disputa para interromper um ataque rival, forçando a paralisação do lance. Essa montanha de atitudes farsantes mostram que o fair-play é uma miragem, que não há a mínima cortesia quando o que se vê é a possibilidade de extrair-se alguma vantagem. Resumindo: os fins justificam os meios.

A tal devolução da bola ao adversário tornou-se uma praxe. Quem não o faz, é condenado. Seria ótimo se essa mentalidade se estendesse para simulações de faltas e ceras, com execração pública no mesmo patamar. Assim que a cultura do proveito próprio mudaria e a civilização se estabeleceria em alguma medida nos jogos de futebol.



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